Vencer não basta, Evo quer arrasar

Líder boliviano pôs toda a máquina a serviço de sua campanha para as eleições presidenciais e legislativas de 12 de outubro

Miguel Ángel Bastenier, EL PAÍS

01 de junho de 2014 | 06h00

Em 12 de outubro haverá eleições presidenciais e legislativas na Bolívia e Evo Morales, que governa o país desde 2006 e busca seu terceiro mandato, não se conforma em ganhar, quer superar dois terços dos votos e de cadeiras no Parlamento: a palavra de ordem é arrasar.

Por que essa necessidade? Numa recente entrevista para Vanity Fair, o presidente assegurava que “não mais”, que tinha de dar passagem a outras gerações. Mas na Bolívia são muitos os que acreditam que a magnitude de sua vitória pode ser um indicador ou pretexto para ele mudar de opinião.

Pedro Rivero, diretor do diário de Santa Cruz, El Deber, dá por certo que “Evo ganhará sem se despentear”, enquanto a oposição “continua desfolhando a margarida em torno de uma candidatura única que seja capaz de fazer frente ao caudilho, até agora imbatível”.

O cientista político Horst Grebe ressalta como “ele pôs em campanha toda a máquina pública, selou alianças com a cúpula sindical, cooperativas mineiras, camponeses e produtores de coca, com presentes e benefícios como um aumento salarial muito acima da inflação”. À sua estratégia eleitoral ele incorporou a demanda contra o Chile pela restituição de um acesso soberano ao Oceano Pacífico, apresentada em 13 de abril de 2013 ante a Corte Internacional de Haia”, que reivindica os 400 quilômetros de costa que La Paz perdeu na Guerra do Pacífico. Com grande habilidade, ele conseguiu atrair uma voz crítica como a do ex-presidente Carlos Mesa para um comitê de reivindicação da saída para o mar, o que não impediu o veterano jornalista e cientista político de tachar a candidatura à reeleição de Evo como inconstitucional. E ainda se poderia somar à lista de operações de prestígio o lançamento na China do satélite de comunicações boliviano Túpac Katari, em 20 de dezembro, e a muito comentada cúpula de 14 e 15 de junho, em Santa Cruz, do Grupo 77 + China, uma espécie de acampamento fraternal do mundo em desenvolvimento que agrupa 133 Estados sob a presidência da Bolívia em 2014.

A reunião é apresentada como a apoteose do multinacionalismo, senha da revolução que Evo que estender, segundo suas próprias palavras, não só a toda a América Latina, mas ao restante da humanidade. E, como afirma o jornalista de rádio e televisão José Pomacusi, a reunião será realizada em Santa Cruz, a cidade da Meia-Lua que foi o bastião tradicional da Bolívia não indígena e “hoje o tem, no entanto, como favorito eleitoral, trocando sorrisos com os empresários crucenhos que com o seu governo ganham mais dinheiro do que nunca”. Em sua obra de autogratificação, ele conta com apoiadores como o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que em maio, em visita a La Paz, assegurava que a “Bolívia nunca esteve tão bem como agora”.

Neste panorama triunfal, não deixaram de aparecer, contudo, borbulhas que poderão infeccionar. No fim de abril, estourou uma insurreição maciça de suboficiais que protestavam pela situação material em que viviam, 715 dos quais foram transferidos para a reserva.

Como diz a diretora do semanário Uno, Maggy Talavera, “muitos acreditaram ver então o anúncio de uma ruptura entre o governo e um de seus aliados privilegiados”. Militares e polícia, como descreve Juan Carlos Rivero, de El Deber, “absorvem cerca de 50% do orçamento e a gratidão da cúpula militar manifestou-se em sua adesão ao processo de mudança, assim como a substituição do grito de guerra “subordinação e constância” pelo de “Pátria ou morte, venceremos”, onde o eco do castro-chavismo soa alto.

Ocorre que, como assinala o jornalista crucenho, “as condições em que se formam e vivem suboficiais e sargentos são deploráveis. Tanto que muitos devem comprar seu próprio uniforme. E seu acesso a assistência médica e educação superior é muito limitado, pelo que eles exigem a descolonização das Forças Armadas”.

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