REUTERS/Alexander Bibik
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Vendas ao Irã motivaram prisão de executiva da Huawei, diz promotor canadense

Ele pediu durante audiência que seja negada a liberdade sob fiança, alegando que Meng Wanzhou poderia usar seus vastos recursos para fugir

O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2018 | 20h48

TORONTO - A diretora financeira da Huawei e filha do fundador da companhia, Meng Wanzhou, compareceu nesta sexta-feira a um tribunal de Vancouver (Canadá) que deve decidir se lhe concede liberdade sob fiança enquanto sua extradição aos Estados Unidos é estudada.

Wanzhou, de 46 anos, foi detida no dia 1.º a pedido das autoridades americanas que querem sua extradição por suposta violação das sanções impostas contra o Irã.

Um promotor do governo do Canadá pediu que a diretora financeira da Huawei seja mantida em custódia. Ele disse que a empresária tem muitos recursos e motivos para deixar o Canadá, pois enfrenta acusações nos EUA que podem lhe custar até 30 anos de prisão.

Ele revelou que as acusações que Wanzhou enfrenta nos EUA têm relação com o fato de a Huawei estar usando uma subsidiária não oficial para ter acesso ao mercado iraniano e realizar negócios que violam as sanções americanas.

Segundo o procurador, ela assegurou que a Huawei e a Skycom são companhias separadas, mas os EUA consideram que a Skycom faz parte da Huawei.

O advogado da executiva afirmou no tribunal que o fato de uma pessoa ter vastos recursos não a exclui do direito de ser libertada sob fiança.

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, tentou distanciar seu governo do crescente conflito entre os Estados Unidos e a China provocado pela detenção e reafirmou a independência do sistema judicial canadense.

A China pediu aos EUA e ao Canadá uma explicação sobre a detenção da diretora financeira da Huawei, que na quinta-feira provocou quedas das bolsas no mundo todo por temor quanto a este caso causar uma intensificação da guerra comercial entre Washington e Pequim.

Além disso, o governo chinês insinuou que poderia adotar represálias contra o Canadá.

A imprensa oficial da China, em vários artigos de opinião, disse que a prisão de Wanzhou é uma tentativa do governo dos EUA com a supremacia tecnológica da companhia chinesa.

"Obviamente, Washington está recorrendo a um enfoque desonesto, já que não pode deter o avanço de Huawei no tema do 5G no mercado", comentou o jornal governista Global Times em um duro editorial publicado nesta sexta-feira.

"Com a detenção, os Estados Unidos enviam sinais à comunidade internacional de que está mirando a Huawei. Está claro que Washington está culpando maliciosamente a Huawei e está tentando colocar a companhia em perigo com as leis americanas", diz o texto.

A detenção de Meng ocorreu no mesmo dia em que o presidente da China, Xi Jinping, e dos EUA, Donald Trump, se reuniram em Buenos Aires e estabeleceram a suspensão temporária da guerra comercial à espera de novas negociações.

"O movimento dos Estados Unidos obviamente vai contra o consenso alcançado entre os chefes de Estado da China e dos Estados Unidos na Argentina", afirmou o Global Times no texto no qual pediu a Pequim "determinação e sabedoria para garantir seus próprios interesses".

Há alguns anos a Huawei vem entrando da mira do governo americano, que acredita que a companhia representa uma ameaça para a segurança nacional por seus supostos laços com Pequim e os serviços de segurança chineses.

"Washington está tentando prejudicar a reputação internacional da Huawei e ameaça o mercado global do gigante tecnológico em nome da lei", acrescentou o Global Times, que fez uma chamada "ao governo e à sociedade chinesa para oferecer apoio moral a Huawei, e aos diplomatas chineses para oferecer assistência oportuna a Meng".

"O governo chinês deveria refletir seriamente sobre a tendência americana de abusar dos procedimentos legais para prejudicar as empresas de alta tecnologia da China", afirmou o jornal.

Outra publicação oficial do país, o China Daily, também se manifestou através de um editorial no qual garantiu que os Estados Unidos estão "tentando fazer o possível para conter a expansão da Huawei no mundo".

"Os motivos de segurança são a razão que eles dão, mas não foram apresentadas provas disto", afirmou o jornal, convencido de que "a animosidade de Washington contra a China é a sua persistente mentalidade de Guerra Fria, com a qual distorce continuamente a realidade das relações internacionais".

Segundo o China Daily, para melhorar as relações entre a China e os Estados Unidos e "as perspectivas brilhantes para a economia mundial", os Estados Unidos devem "mudar sua mentalidade" em relação a Pequim e deixar de ver o país como "um rival".

O Japão vai proibir o uso por parte do governo de dispositivos de telecomunicações fabricados pelos grupos chineses Huawei e ZTE por questões de segurança cibernética, informou a imprensa.

A decisão pode ser aplicada a partir de segunda-feira, de acordo com o jornal Yomiuri e a agência de notícias Jiji Press.

A proibição seria adotada depois que o governo dos Estados Unidos solicitou a seus aliados que evitem os produtos fabricados por estas duas empresas, em consequência dos temores de que servem para a execução de ciberataques, indica o Yomiuri, que cita fontes governamentais não identificadas.

Os produtos japoneses que utilizam peças fabricadas por uma das duas empresas chinesas também serão excluídos do uso governamental.

De acordo com o Yomiuri, o governo não pretende citar diretamente as empresas para evitar a irritação da China.

Ao ser questionado sobre as informações, o porta-voz do governo, Yoshihide Suga, não fez comentários e disse apenas que o Japão "coopera estreitamente com os Estados Unidos" em questões de segurança cibernética.

A informação foi divulgada depois da detenção no Canadá de Meng Wanzhou, o que revoltou o governo da China e provocou quedas expressivas nos mercados financeiros pelo temor de que poderia aumentar a tensão entre Pequim e Washington.

As autoridades americanas suspeitam que o grupo chinês exportou, ao menos desde 2016, produtos de origem americana para o Irã e outros países submetidos a sanções de Washington.

A empresa já estava na mira dos serviços de inteligência americanos, que a consideram uma ameaça para a segurança nacional. 

Os smartphones a preços acessíveis da Huawei conquistaram uma boa fatia de mercado, mas a empresa enfrenta diversos reveses em grandes economias ocidentais devido às preocupações com a segurança.

A ZTE foi objeto de duras sanções do governo de Donald Trump este ano por não respeitar o embargo americano contra Teerã. 

O grupo teve que paralisar a maior parte de suas atividades, o que deixou em perigo sua sobrevivência, mas conseguiu escapar ao pagar uma multa de um bilhão de dólares./EFE e AFP

 

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