Francesca Volpi/NYT
Francesca Volpi/NYT

Veneza vai reformar ponte do renomado arquiteto Santiago Calatrava após anos de acidentes

Prefeitura tem sido acionada na Justiça por escorregões em famosa construção que custou milhões de dólares

Emma Bubola, The New York Times, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2022 | 10h00

Enquanto turistas se aventuravam sem pensar duas vezes sobre o piso de vidro da passarela, os habitantes de Veneza andavam com cautela. Os venezianos faziam questão de percorrer a estreita faixa central de pedra; alguns chegavam a tirar seus óculos embaçados para manter os olhos voltados ao chão. Quando um turista tropeçava, eles mal olhavam para cima.

"Aquilo ali não é uma ponte", disse o estivador aposentado Angelo Xalle, de 71 anos, contando que ajudou pessoas com queixos ou testas quebradas a levantar-se do piso escorregadio. "É uma armadilha."

A Ponte della Costituzione foi construída para ser um símbolo da modernidade de Veneza, mas tem gerado queixas por anos devido a acidentes ocorridos com pedestres.

Projetada pelo renomado arquiteto Santiago Calatrava, a Ponte della Costituzione é uma obra de vidro e aço que custou milhões de dólares e foi inaugurada em 2008. A ideia era que sua curva suave por cima do Grande Canal, perto da estação ferroviária de Veneza, simbolizasse o avanço da cidade em direção à modernidade. Mas a ponte de pedestres acabou ficando mais famosa por provocar quedas e escorregões perigosos.

Agora, após anos de problemas e protestos, a prefeitura de Veneza decidiu substituir o vidro translúcido por um material menos escorregadio –e menos glamouroso—, o traquito, um tipo de pedra.

"As pessoas se machucam e aí processam a prefeitura", explicou Francesa Zaccariotto, do departamento de obras públicas de Veneza. "Temos que intervir."

A decisão da prefeitura de reservar 500 mil euros (cerca de R$ 3 milhões) para repor a seção de vidro da passarela foi tomada após várias tentativas infrutíferas de usar faixas de resina ou outros materiais antiderrapantes, para limitar os acidentes. No mês passado, quando a chegada do frio e das chuvas do inverno tornaram o chão da passarela especialmente perigoso, a prefeitura colocou placas de aviso na parte de vidro da passarela –que constitui a maior parte dela— pedindo que as pessoas evitassem andar por ali.

Aclamado em todo o mundo por obras que incluem o Centro de Transportes do World Trade Center, em Nova York, e o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, Calatrava recebeu a encomenda de projetar a passarela em 1999. Ela foi inaugurada nove anos mais tarde, após protestos por conta dos atrasos e dos custos galopantes da obra, e pouco depois começaram a chegar queixas sobre escorregões e quedas.

As queixas se intensificaram em 2013, quando a prefeitura instalou um teleférico na ponte para torná-la mais acessível. A cabine vermelha e redonda, que não foi desenhada por Calatrava, custou cerca de 1,5 milhão de euros, era lenta e ficava insuportavelmente quente no verão. Acabou sendo desmontada.

Em 2018, a prefeitura substituiu algumas das placas de vidro por traquito. Mas durante a pandemia, quando a televisão nacional filmou pessoas atravessando a ponte para ilustrar o retorno à normalidade após o lockdown, as câmeras flagraram um transeunte levando um tombo. No ano passado, a prefeitura conseguiu a verba necessária para repor todo o piso de vidro.

Veneza não é a primeira cidade a ter problemas com obras de Calatrava. Em 2011 a prefeitura de Bilbao, na Espanha, instalou um grande carpete de borracha preta sobre uma passarela de Calatrava revestida de lajotas de vidro, porque muitos pedestres já haviam derrapado e caído.

O plano de Veneza ainda precisa passar por testes estruturais e receber a aprovação da autoridade arquitetônica da cidade, mas, segundo Zaccariotto, a prefeitura está determinada a levá-lo adiante, para evitar os tombos "quase diários".

Embora aprecie o trabalho de Calatrava, ela disse que critérios estéticos não devem ter precedência sobre princípios de segurança. E, como as ações na Justiça têm como alvo a prefeitura, e não o arquiteto, é a prefeitura quem vai se encarregar de buscar uma solução para o problema.

"Não podemos sempre nos pautar pela poesia", disse Zaccariotto. "Precisamos dar segurança à população."

Santiago Calatrava já enfrentou multas e ações judiciais por problemas ligados à ponte, mas defende-se de seus detratores. Ele disse em 2008: "A ponte foi checada com métodos sofisticados que determinaram que ela tem estrutura sólida e está tendo um desempenho melhor que o previsto."

O escritório de Calatrava não respondeu a um pedido de declarações sobre o novo plano de segurança ou sobre as críticas à passarela.

A autora de uma das ações judiciais é a professora romana aposentada Mariarosaria Colucci. Ela estava indo ao teatro em 2011 para assistir a uma apresentação de seu filho quando levou um tombo na ponte de Calatrava e quebrou o úmero –"em cinco partes, como uma alcachofra". Ela processou a prefeitura e ganhou o processo em primeira instância, para receber indenização de cerca de 80 mil euros. Mas a prefeitura recorreu da decisão, Colucci perdeu e agora aguarda a decisão final da Suprema Corte da Itália.

"Essa ponte fica bonita numa revista de arquitetura", comentou Colucci, de 76 anos. "Mas a pessoa tem que ser muito ágil para não cair."

Anna Maria Stevanato foi ao centro de Veneza de ônibus no ano passado para participar de um torneio de buraco e fraturou a clavícula ao levar um tombo sobre a passarela.

"Caí como um saco de batatas", contou, comentando que Calatrava "estragou os anos mais belos de minha velhice."

Para ela, que tem 80 anos, o problema é que o arquiteto espanhol não domina a arte de construir pontes seguras, como é o caso dos venezianos. Veneza possui cerca de 400 pontes. Stevanato e muitos outros moradores da cidade se orgulham de conseguir atravessá-las enquanto leem um livro ou mesmo com os olhos fechados. Mas, segundo muitos, no caso da passarela criada por Calatrava, as dimensões mistas dos degraus e a cor das lajotas os deixam confusos e com os pés à deriva.

"Um veneziano jamais teria construído um absurdo destes", disse Stevanato.

Algumas pessoas aprovam as modificações propostas para a passarela. "A ponte vai ficar mais feia, mas tem que ser assim", comentou Leonardo Pilat, de 19 anos, cuja mãe levou um tombo na passarela. Nem todos concordam, porém.

"Trata-se uma ponte excepcional. Deveriam deixá-la como está", opinou o professor universitário aposentado Demetrio Corazza, de 85 anos, que atravessava a ponte com frequência com sua mulher para fazer compras. "A beleza precisa salvar o mundo."

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