REUTERS/Carlos Eduardo Ramirez
REUTERS/Carlos Eduardo Ramirez

Venezuela aciona militares para frear saques após falha em troca de cédulas

Chavismo convoca Exército para conter roubos em pelo menos três Estados, depois de tentar tirar do mercado notas de 100 bolívares sem emitir maiores para reposição; revolta se agrava porque comerciantes deixaram de aceitar bilhetes em extinção

O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2016 | 20h46

CARACAS - O governo da Venezuela acionou ontem o Exército para conter saques em ao menos três Estados do país. Os ataques foram provocados pelo fracasso na troca de notas de bolívares promovida pelo presidente Nicolás Maduro, manobra que representaria a retirada de metade das cédulas em circulação. Maduro acusou a oposição de estar por trás das invasões a supermercados em Bolívar, Táchira e Zulia. 

A situação é mais grave em Bolívar, Estado na fronteira com o Brasil, onde houve saques em pelo menos seis cidades: El Callao, Guasipati, Ciudad Piar, Tumeremo, La Paragua e Santa Elena de Uairén, próxima a Roraima. Todas elas receberam reforço da Guarda Nacional Bolivariana e há toque de recolher.

Segundo o governador de Bolívar, o chavista Francisco Rangel Gómez, houve 262 prisões entre sábado e ontem e 3 mil militares foram chamados. Ao menos uma pessoa, um jovem de 14 anos, morreu baleado. A Associação Comercial local disse ter registrado 350 saques, 90% deles em lojas de alimentos. 

Em El Callao, onde o jovem morreu, foram registradas 25 ações semelhantes. Outras 40 pessoas ficaram feridas. Na cidade de La Fría, em Táchira, fronteira com a Colômbia, um grupo revoltado com a escassez de dinheiro queimou a prefeitura local. A segurança também foi reforçada em Maracaibo. “Não estou de acordo com isso: trocar dinheiro para poder comer”, disse a dona de casa Bismary Rivero, que viajou 450 quilômetros para trocar suas notas de 100 bolívares em Caracas. “Isso é uma loucura. Estou cansada.”

A situação na Venezuela se agravou depois de Maduro decidir abruptamente tirar as cédulas de 100 bolívares (US$ 0,02 no mercado paralelo) de circulação e apressar a entrada dos novos bilhetes, com valores que variam de 500 a 20 mil bolívares. Maduro acelerou o lançamento dos novos valores e decidiu tirar as notas de 100 de circulação em três dias. O primeiro prazo dado pelo chavismo para abolir as notas, a quinta-feira passada, foi alterado para amanhã. No sábado, com novos relatos de saques, o governo mudou novamente a data limite para 2 de janeiro - período em que as fronteiras com Colômbia e Brasil permanecerão fechadas. 

A operação monetária deu errado porque as novas cédulas não ficaram prontas a tempo. Quem conseguiu depositar após horas na fila de bancos as notas 100 em processo de extinção recebia as mesmas ao sacar em caixas eletrônicos. 

A revolta se agravou porque, embora o governo tenha ampliado a validade das cédulas, elas já não são aceitas por comerciantes. Na prática, ninguém quer ficar com as notas de 100, que representam 48% dos bilhetes do país. Segundo o Banco Central da Venezuela (BCV), a impressão dessas notas de 100 no país cresceu 12 vezes em 3 anos.

Maduro responsabilizou ontem a oposição pelos problemas. “A Venezuela está sendo vítima de uma sabotagem”, disse o presidente, que acusou os partidos Voluntad Popular e Primero Justicia de tentarem derrubá-lo com auxílio americano. No domingo passado, o presidente denunciou supostas “máfias internacionais” que estariam tirando as notas do país.

“A medida castiga comerciantes colombianos ou brasileiros que aceitavam bolívares. Os venezuelanos já não terão acesso a esses mercados para suprir a escassez de produtos em seu país”, avalia José Vicente Carrasquero, da Universidade Simón Bolívar. / REUTERS, AFP e AP, COLABOROU CLAUDIA MULLER

 

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