Venezuela admite que Chávez pode não tomar posse

Governo alerta que recuperação de presidente até 10 de janeiro é difícil; chanceler Nicolás Maduro incorpora papel de sucessor e futuro candidato

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2012 | 02h00

O ministro da Comunicação venezuelano, Ernesto Villegas, alertou ontem a população em um artigo na internet para que "esteja preparada" caso o presidente Hugo Chávez, que sofre de um câncer na região pélvica, não tome posse dia 10 de janeiro. Se o líder bolivariano não se recuperar da operação pela qual passou em Havana na terça-feira, caberá ao presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, convocar em 30 dias nova eleição.

Horas, depois, o ministro informou que Chávez estava em "condições estáveis" e "em processo evolutivo". A quarta cirurgia do presidente venezuelano, realizada ao longo de seis horas, causou efeitos colaterais no vice-presidente Nicolás Maduro. O "moderado, pragmático e discreto" chanceler aceitou ontem, na prática, sua unção como sucessor e incorporou, a quatro dias das eleições estaduais, trocadilhos e provocações popularizados pelo líder bolivariano em 14 anos no poder.

"A burguesia quer dólares, mas lhe daremos dores", disse Maduro, arrancando aplausos e gritos de apoio de centenas de chavistas reunidos para uma missa na Praça Bolívar, centro de Caracas, animados pela notícia de que o presidente tinha resistido à complexa operação em Cuba.

Durante 15 minutos, Maduro chorou, provocou a oposição e usou a enfermidade de Chávez para motivar a militância. "O presidente merece que elejamos os 23 governadores no domingo. Queremos a Venezuela 'roja, rojita' (vermelha, vermelhinha)", completou, usando outra das expressões preferidas do líder bolivariano. Durante o discurso em que arremeteu contra o "imperialismo americano" e enalteceu o regime cubano, Maduro fez breves interrupções para responder com simpatia a gritos vindos da plateia.

Simplicidade. Ao final, Maduro não fugiu do contato direto com os chavistas e arrancou elogios de membros da guarda bolivariana pela simplicidade. "Viu que ele saiu dirigindo o próprio carro?", espantou-se um policial. "É, pouco a pouco as pessoas se acostumam", respondeu outro.

A mudança de estilo do chanceler é considerada por Omar Noria, professor de ciências políticas da Universidade Simón Bolívar, um sinal de que Maduro aceitou o papel de substituto. No sábado, Chávez anunciou em cadeia nacional que partia para Cuba para uma nova cirurgia, considerada por ele mesmo de "alto risco", e pediu aos venezuelanos que votassem em Maduro em caso de nova eleição.

Nos comícios nos quais acompanha representantes do governista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), Maduro tem falado tanto ou mais que os próprios candidatos a governador. "Assumir o papel de sucessor é normal, já que Chávez o nomeou. Mas ele usou um arsenal de adjetivos próprios do discurso chavista que nem mesmo Elías Jaua, que ficou durante anos na função de vice-presidente, um dia se atreveu a usar", avalia Noria.

A principal disputa da eleição de domingo ocorre em Miranda, que engloba parte do município de Caracas, onde Henrique Capriles, derrotado por Chávez nas eleições presidenciais de outubro, tenta se reeleger. Mais do que um novo mandato, Capriles busca se firmar como candidato da Mesa da Unidade Democrática (MUD), coalizão heterogênea de partidos cuja única afinidade é derrotar o chavismo.

Capriles enfrentará Jaua, o vice-presidente preterido por Chávez em outubro. O vice na Venezuela é um cargo de confiança que o presidente pode mudar a qualquer momento.

Unidades. Na tarde de ontem, Maduro usou a rede nacional para falar da recuperação de Chávez. Afirmou que recebeu ainda de madrugada a Cabello - que ontem negou rumores sobre a morte de Chávez surgidos, segundo ele, na Colômbia. Com semblante fechado, Maduro declarou: "É preciso ser objetivo. O cenário é complexo e difícil e só pode ser enfrentado com a unidade do povo, com a unidade das forças políticas, com a unidade da gente humilde. Podemos dizer que estamos mais unidos que nunca. Primeiro, unidos espiritualmente. Depois, unidos politicamente", afirmou.

Ontem, uma missa em Caracas que teve transmissão pela estatal Venezolana de Televisión, foi batizada Oração pela Unidade. Caso Chávez se recupere, tome posse, mas morra ou se torne incapaz de concluir os quatro primeiros anos de mandato, o vice-presidente - no caso, Maduro - assume e convoca eleição em 30 dias.

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