Schneyder Mendoza / AFP
Schneyder Mendoza / AFP

Venezuela amplia o caos com uma das maiores desvalorizações da moeda

A previsão é a de que, com as medidas de Meduro, a inflação aumentará ainda mais e haverá um aumento no êxodo de venezuelanos

Eduardo Thomson e Fabiola Zerpa / Bloomberg, O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2018 | 05h00

O presidente Nicolás Maduro realizou uma das maiores desvalorizações de moeda da história. Uma desvalorização de 95% que vai testar a capacidade de uma população já em apuros suportar ainda mais sofrimento.

Um provável impacto é que a inflação, com previsão de chegar a 1.000.000% este ano, segundo o FMI, subirá mais ainda com essas medidas. Os preços atualmente vêm aumentando a uma taxa anualizada de 108.000% de acordo com o Índice Café com Leite da Bloomberg. E o êxodo em massa de venezuelanos que fogem da crise para países vizinhos só deve aumentar, como também as tensões e restrições como as verificadas nos últimos dias.

A taxa oficial da moeda passará de 285.000 por dólar para 6 milhões, um choque que as autoridades tentaram compensar em parte aumentando o salário mínimo em 3.500%, o equivalente a US$ 30 mensais. Embora Maduro tenha alardeado que o FMI  não tinha relação com a nova política anunciada, alguns elementos das medidas se assemelham a um ajuste econômico ortodoxo clássico, apesar de algumas distorções.

A nova estratégia de Maduro para a economia é uma resposta desesperada à situação depois de anos de políticas desastrosas que debilitaram o crescimento do país, provocaram uma disparada dos preços e transformaram um dos países mais ricos da América Latina numa nação disfuncional que causou uma crise de refugiados. Vem se intensificando a pressão para Maduro encontrar uma solução para a situação, com apelos para sua saída aumentando, seis anos depois de assumir a presidência com a morte de Hugo Chávez. No início deste mês Maduro iniciou uma campanha de repressão contra opositores depois de uma suposta tentativa para assassiná-lo com um drone com explosivos.

As medidas econômicas adotadas demonstram “a disposição do governo a fazer o que for preciso para se manter no poder”, disse Raul Gallegos, diretor da organização Control Risks. “Maduro parece vulnerável e é algo que pode ocorrer.”

As ruas de Caracas estavam vazias na manhã de segunda-feira com os venezuelanos ainda digerindo as notícias e o impacto que as novas medidas terão sob suas economias. Muitas lojas, incluindo supermercados, estavam fechadas e algumas empresas que abriram aguardavam mais detalhes para ajustar os preços.

A desvalorização ocorreu no mesmo momento em que o governo adotou nova denominação para a moeda, cortando cinco zeros, introduzindo novas cédulas e mudando seu nome. Assim, em vez de o novo salário mínimo ser de 1,8 milhão de bolívares, ele será de 1.800 bolívares soberanos. Os bancos estavam fechados e atarefados adaptando as máquinas automáticas e plataformas online às novas regras monetárias.

Para complicar ainda mais as coisas, o valor do novo bolívar foi atrelado a uma criptomoeda – a primeira vez que um governo emprega essa técnica. A chamada petro é respaldada pelo petróleo bruto e está avaliada pelo governo em US$ 60, ou 3.600 bolívares soberanos. A criptomoeda será flutuante e será usada para estabelecer o preço dos produtos.

O imposto sobre valor agregado aumentará quatro pontos porcentuais e serão eliminados alguns subsídios para a gasolina, o que significará uma economia para o governo de US$ 10 bilhões ao ano, disse Maduro, sem dar mais detalhes. O Banco Central da Venezuela aumentará a frequência dos leilões de moeda estrangeira para três vezes, possivelmente cinco, por semana.

Sob alguns aspectos a desvalorização é uma mera formalidade. Há anos muitas pessoas e companhias não conseguem ter acesso a dólares às taxas estabelecidas pelo governo e precisam comprá-los no câmbio paralelo. Em conseqüência, os preços de muitos produtos em todo país já têm essa taxa de câmbio como base.

“Eles têm de fazer isso porque estão sem dinheiro”, disse Moisés Naim, do Carnegie Endowment e ex-ministro da Venezuela. Ele destacou que a produção de petróleo – praticamente a única indústria do país – despencou nos últimos anos por falta de equipamento e expertise técnica, as reservas em divisa estrangeira desabaram e aliados como China e Rússia vêm oferecendo menos suporte.

Em meio ao aperto financeiro, Maduro suspendeu muitos pagamentos da dívida externa do país e deve agora US$ 6,1 bilhões para detentores de títulos públicos venezuelanos, cortando muitas fontes de novos financiamentos. Os credores também estão em busca de ativos do país no exterior com o objetivo de confiscá-los

A ConocoPhillips anunciou um acordo de US$ 2 bilhões com a estatal venezuelana de petróleo PDVSA na segunda-feira num processo de arbitragem iniciado há dez anos envolvendo a expropriação de ativos. A Venezuela pagará US$ 500 milhões durante os próximos 90 dias e o restante em pagamentos trimestrais durante os próximos quatro anos e meio. A Conoco suspenderá suas ações impetradas contra a PDVSA envolvendo ativos da companhia no Caribe.

Os títulos do Tesouro venezuelano vencidos em 2017 estão sem pagamento e caíram 0,3%, para 26,7 centavos o dólar. É o patamar mais baixo desde fevereiro.

O simbolismo do anúncio das drásticas medidas foi observado por muitos venezuelanos. O presidente Luis Herrera Campins desvalorizou o Bolívar pela primeira vez em 22 anos depois de uma forte queda nos preços do petróleo. O dia ficou conhecido localmente como Sexta-feira Negra.

Quando em 1989 o governo da Venezuela aumentou o preço da gasolina, suspendeu os controles cambiais e permitiu uma desvalorização da moeda, os preços subiram 21% em um mês, provocando protestos conhecidos como Caracaço, quando centenas de pessoas foram mortas, e abriram caminho para Hugo Chávez chegar ao poder.

Não se sabe como as medidas anunciadas serão recebidas por um dos aliados-chave do governo: o Exército. Generais do alto escalão assumiram ministérios, administram a estatal de petróleo e as lucrativas empresas de importação de alimentos. As inúmeras taxas de câmbio criaram ótimas oportunidades de arbitragem que enriqueceram muitos parceiros próximos do governo.

“Claramente as medidas afetarão a popularidade de Maduro, mas o poder é sustentado com balas, não com votos”, disse Naim. “Enquanto o Exército continuar a ter acesso a negócios lucrativos continuará dando apoio ao governo.”

A oposição, um grupo fragmentado de partidos cujos líderes estão escondidos ou presos, convocou protestos contra as medidas nesta terça-feira. Vários sindicados também decretaram uma greve nacional de 24 horas.

Muitas empresas privadas, já lutando contra a hiperinflação, a falta de empregados qualificados, controles de preços e ameaças de confisco, agora têm de enfrentar uma inflação ainda mais rápida e aumentos de salário obrigatórios. É possível que o êxodo de venezuelanos para outros países cresça, apesar de o Equador e o Peru terem restringido a entrada e das tensões que eclodiram na fronteira com o Brasil. “As pessoas estão deixando o país por desespero, um sentimento que agora vai aumentar”, disse Naim. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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