Luis ROBAYO / AFP
Luis ROBAYO / AFP

Venezuela: as 96 horas desde o fechamento da fronteira até a reunião do Grupo de Lima

'Estado' reuniu os principais acontecimentos desde que o presidente chavista, Nicolás Maduro, bloqueou a passagem para o Brasil na quinta-feira até a reunião, em Bogotá, dos países da região que apoiam o líder opositor Juan Guaidó

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2019 | 16h52

O Estado separou os principais fatos na Venezuela, no Brasil e na Colômbia nos últimos quatro dias, desde que o presidente chavista, Nicolás Maduro, decretou o fechamento da fronteira do país com seus vizinhos para impedir a entrada de ajuda humanitária liderada pelo opositor Juan Guaidó, que se declarou presidente interino em janeiro.

Após episódios de tensão, violência e repressão, que deixaram ao menos quatro mortos, dezenas de feridos e resultaram em mais de uma centena de deserções entre militares chavistas, o Grupo de Lima se reúne em Bogotá para estabelecer novas estratégias para a crise venezuela.

Veja abaixo o que ocorreu nestas 96 horas do caos político aos confrontos na região:

- Quinta-feira, 21

A ordem do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, para que a fronteira do país com o Brasil fosse fechada marcou o início de uma série de desentendimentos e enfrentamentos entre manifestantes e militares da Guarda Nacional Bolivariana. 

A medida foi anunciada pelo chavista no começo da tarde da quinta e entrou em vigor, efetivamente, às 20 horas daquele dia. Cogitou-se a possibilidade de o posto aduaneiro ser reaberto na manhã seguinte, mas isso não concretizou-se.

Horas antes da ordem do presidente bolivariano, um deputado opositor da Assembleia Nacional da Venezuela denunciou em suas redes sociais o envio de veículos militares blindados para Santa Elena de Uairén, última cidade em território venezuelano. 

Já diante do impasse sobre o posto aduaneiro venezuelano, o vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, garantiu que "em hipótese alguma" militares ou pessoas ligadas ao governo do País atravessariam a fronteira para o lado venezuelano.

No fim do dia, o líder opositor Juan Guaidó "decretou" que a divisa entre os dois países deveria permanecer aberta com base em sua autoridade como presidente interino autodeclarado. Ele reiterou ainda a diposição da Venezuela em "manter as relações diplomáticas, consulares e de toda ordem com as autoridades das ilhas de Aruba, Curaçau e Bonaire, assim como com as correspondentes autoridades do Reino dos Países Baixos" - outros territórios bloqueados por Maduro.

- Sexta-feira, 22

Em mensagem publicada pela conta oficial no Twitter da Assembleia Nacional da Venezuela - controlada pela oposição -, os legisladores denunciaram que os ônibus que transportavam deputados até a fronteira do país com a Colômbia foram atacados por apoiadores de Maduro. A caravana tinha como objetivo apoiar o esquema organizado para distribuição de ajuda humanitária no dia seguinte.

No Brasil, o avião enviado pela Força Aérea Brasileira com quase 100 toneladas de remédios e alimentos chega até a capital de Roraima, Boa Vista. Uma reunião entre a representante diplomática de Guaidó no Brasil, María Teresa Belandria, e autoridades definiu os detalhes para o envio da ajuda até Pacaraima, a 215 km da capital e na fronteira com a Venezuela.

Do lado venezuelano da fronteira com o Brasil, na comunidade indígena de Gran Sabana, nos arredores de Santa Elena, soldados venezuelanos abriram fogo contra civis que tentavam manter uma trilha aberta na fronteira seca - duas pessoas morreram e 15 ficaram feridas.

Relembre as imagens feitas pelo fotógrafo da 'Reuters' em 2016

Ainda na sexta-feira, em Caracas, o repórter fotográfico da agência Reuters Carlos Garcia Rawlins visitou novamente Yaneidi Guzmán, moradora da maior favela da capital venezuelana retratada por ele em abril de 2016. Neste período, ela perdeu 30% de seu peso em razão da crise econômica que a impediu de comprar alimentos ou vitaminas.

Prometido como um grande evento de arrecadação de dinheiro totalmente revertido para a disponibilização de mais ajuda humanitária, o evento Venezuela Aid Live - organizado pelo bilionário britânico Richard Branson - reuniu dezenas de artistas na cidade colombiana de Cúcuta e um público estimado em mais de 200 mil pessoas.

Guaidó desafiou a proibição de Maduro de deixar o país e cruzou a fronteira para acompanhar de perto a mobilização em favor de seu país. Depois, ele afirmou que forças militares venezuelanas ajudaram-no a ingressar à Colômbia. "Como chegamos aqui hoje na Colômbia? Quando proibiram o espaço aéreo, quando proibiram todo tipo de transporte marítimo, obstaculizaram as vias, dispararam em deputados que vinham em caravana até a fronteira, estamos aqui precisamente porque as forças armadas (venezuelanas) também participaram deste processo. Essa é a verdade", afirmou Guaidó. 

Depois do show, o governo chavista ordenou também o fechamento da fronteira do país com a Colômbia. A deputada da Assembleia Nacional Constituinte - formada só por chavistas -, Delcy Rodríguez, escreveu em sua conta no Twitter que "devido às sérias e ilegais ameaças do governo da Colômbia contra a paz e a soberania da Venezuela, (o governo) tomou a decisão de um fechamento total temporário de todas as pontes que unem ambos países por Táchira".

- Sábado, 23

Em entrevista ao Estado publicada no sábado, o ministro da Defesa do Brasil, general Fernando Azevedo e Silva, afirmou que “não há possibilidade de confronto militar” entre Brasil e Venezuela. “A determinação que nós recebemos do presidente Jair Bolsonaro é de que, de jeito nenhum, as Forças Armadas brasileiras atravessarão a fronteira” para levar ajuda humanitária aos venezuelanos.

No começo da tarde, os dois caminhões que saíram de Boa Vista com ajuda humanitária chegam a Pacaraima. Os veículos passam alguns poucos metros do marco fronteiriço entre os dois países, mas não avançam em direção ao posto da aduana venezuelana. 

Na cidade venezuelana de Ureña, no Estado de Táchira, militares venezuelanos dispersaram com gás lacrimogêneo e balas de borracha dezenas de pessoas que tentavam chegar à Colômbia por uma ponte fronteiriça. Muitos alegavam que precisavam ir ao território colombiano para trabalhar.

Enquanto isso, em Cúcuta, Guaidó discursa ao lado dos presidentes de Colômbia, Chile e Paraguai, além do secretário-geral da OEA: "A ajuda humanitária em definitivo vai a caminho da Venezuela de maneira pacífica e de maneira tranquila para salvar vidas neste momento", prometeu.

Também no sábado foram registrados os primeiros episódios de venezuelanos desertando para a Colômbia. Inicialmente, 23 militares de diferentes grupos das Forças Armadas da Venezuela se apresentaram na fronteira com a Colômbia para pedir auxílio.

Em discurso para uma multidão de apoiadores em Caracas, Maduro anuncia o rompimento das relações diplomáticas com a Colômbia e ameaça Guaidó, a quem diz que está sujeito à Justiça se voltar ao país. "Estamos esperando pelo senhor fantoche palhaço, fantoche do imperialismo americano e mendigo", disse em referência ao opositor.

Pelo Twitter, a presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), Gleisi Hoffmann, diz que a ajuda humanitária organizada pela oposição venezuelana está a serviço do "imperialismo" americano. "Dias tristes nos esperam na América Latina com essa intervenção fantasiada de ajuda na Venezuela. Sofreremos por essa posição do Brasil de se submeter aos interesses dos EUA. Não serão eles a viver os efeitos desse conflito. Alertei tempos atrás", escreveu Gleisi.

Durante a confusão entre manifestantes e militares da GNB na fronteira da Venezuela com a Colômbia, dois caminhões com várias toneladas de ajuda são incendiados depois de os militares chavistas aparentemente permitirem que o veículo se aproximasse da ponte que separa as duas nações.

No fim do dia, o saldo de mortos é de três pessoas. Elas morreram durante enfrentamentos em Santa Elena, na fronteira com o Brasil. Mais de 30 pessoas ficaram feridas - muitas delas foram transferidas para hospitais em Roraima.

O coronel José Jacaúna, chefe da Operação Acolhida na fronteira brasileira, diz que a ação da GNB contra os manifestantes em território brasileiro poderia configurar uma agressão ao País, o que demandaria uma resposta da diplomacia brasileira e do presidente Jair Bolsonaro.

Pelo Twitter, Guaidó diz que vai propor aos países da região que o apoiam que mantenham 'todas as opções' para libertar a Venezuela, dando a entender que poderia apoiar durante reunião do Grupo de Lima, na segunda-feira, em Bogotá, uma estratégia que inclua, por exemplo, uma intervenção militar dos EUA ou de outros países.

- Domingo, 24

O dia começou com três sargentos da GNB desertando para o Brasil, em Pacaraima. Eles afirmaram que a decisão de abandonar seus postos estava diretamente ligada ao confronto do dia anterior com os manifestantes radicados no País e também com a forma como Maduro conduz, de forma geral, a crise econômica, política e social.

Autoridades nacionais disseram ao Estado que negociavam um acordo para permitir a travessia dos brasileiros que vivem ou fazem turismo na região de fronteira com Venezuela - a retenção deles no país vizinho causava apreensão ao governo.

Após novos conflitos, menos intensos que no dia anterior, militares de Brasil e Venezuela agiram em conjunto e traçaram estratégias para evitar mais violência. Os venezuelanos também se comprometeram com a segurança de cerca de 30 caminhões brasileiros retidos numa área próxima a Santa Elena do Uairén.

Fontes militares ouvidas pelo Estado disseram que a declaração do coronel Jacaúna no dia anterior causou "desconforto" no governo. "Essa declaração pegou todos de surpresa. Não vai se repetir", afirmou um general. "Não houve ataque ao Brasil ou ato de hostilidade ao nosso País. Eles se enfrentaram de lá, jogaram gás lacrimogêneo, pedras e sobrou pra nós. Não dá pra fazer disso uma tempestade", minimizou outro general.

Em Santo Antonio del Táchira, o nº 2 do chavismo, Diosdado Cabello, afirmou que o bloqueio da ajuda humanitária nas fronteiras do país foi uma vitória do governo Maduro. "Hoje (domingo) consolidamos a vitória de ontem, amanhã consolidaremos ainda mais esta vitória (...) nenhum um único caminhão com ajuda humanitária passou", declarou Cabello.

- Segunda-feira, 25

Deputados da Assembleia Nacional da Venezuela preparam denúncia à Corte Interamericana de Direitos Humanos contra Maduro por violações aos direitos humanos. O texto também deverá ser encaminhado ao Tribunal Penal Internacional.

Uma porta-voz da diplomacia da União Europeia (UE) reiterou o pedido do bloco para que se evite uma intervenção militar na Venezuela e seu compromisso com uma saída "pacífica, política e democrática" para a crise. "Precisamos de uma solução pacífica, política e democrática para a crise, que exclua a violência", acrescentou a porta-voz de Federica Mogherini, chefe da diplomacia europeia.

Balanço das deserções no Brasil e na Colômbia indica que mais de 170 militares, a maioria deles de baixas patentes, já fugiram para os dois países depois de renegarem o governo Maduro. Muitos se disseram até mesmo dispostos a pegar em armas contra o chavista.

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