REUTERS/Maxim Shemetov
REUTERS/Maxim Shemetov

Venezuela cede fatias do setor de energia em troca de ajuda da Rússia 

Putin aproveita a necessidade de Maduro financiar o próprio regime para vender armas em troca de petróleo e de partes de empresas estatais venezuelanas; objetivo é projetar poder e driblar as sanções econômicas impostas pelos EUA

Anthony Faiola e Karen DeYoung/The Washington Post, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2019 | 05h00

CARACAS - Como aliada, a Venezuela sai barato para a Rússia. Mas o retorno do investimento pode ser incalculável. Em troca de empréstimos modestos e resgates, o governo russo tem agora partes significativas de cinco campos de petróleo na Venezuela, além de 30 anos da produção futura de dois campos de gás natural no Caribe.

Em dificuldades financeiras, o governo de Nicolás Maduro também transferiu a posse de mais de 49,9% da Citgo, sua subsidiária nos EUA – incluindo refinarias e oleodutos – como garantia para a estatal russa Rosneft, por US$ 1,5 bilhão em dinheiro.

Assessores russos já trabalham dentro do governo venezuelano, ajudando nas tentativas de Maduro de resgatar o país da falência. Eles ajudaram a planejar este ano a introdução de uma criptomoeda, o “petro”, para manter os pagamentos de petróleo, evitando sanções dos EUA sobre as transações em dólares.

A ainda formidável força de defesa da Venezuela, ex-cliente exclusivo dos EUA, está agora equipada com armas, tanques e aviões russos, financiados com envio de petróleo pré-pago a clientes da Rússia. Em 2017, Maduro ridicularizou a ameaça do presidente Donald Trump de derrubá-lo, dizendo que a Venezuela, com ajuda russa, havia se transformado em uma “fortaleza” defensiva.

Sob o governo de Vladimir Putin, a Rússia se restabeleceu como um importante ator no Oriente Médio, um influente agente na Ásia e um fornecedor global de armas cada vez mais sofisticadas. Ao se tornar patrono da Venezuela, enquanto suga seus recursos, Putin não só cutucou os EUA, mas cresceu em sua autoproclamada reputação em casa como o homem que está devolvendo à Rússia o status de superpotência, perdido com a queda da União Soviética.

Objetivo

“Para a Rússia, a criação de um posto político avançado nas Américas é uma vitória estratégica”, disse Eric Farnsworth, vice-presidente do Council of the Americas and Americas Society, centro de estudos com sede em Washington. “A Rússia não se importa com a sobrevivência do regime de Maduro”, disse. “Ele é um meio para se obter um fim. O objetivo é projetar poder, acabar com as sanções que o Ocidente impôs e criar dificuldades para os EUA. Se, no final das contas, eles se mostrarem um parceiro não confiável, mesmo perdendo alguns bilhões de dólares, talvez esteja tudo bem.”

Avanço militar

No início de dezembro, dois bombardeiros russos Tu-160 de longo alcance e com capacidade nuclear chegaram ao Aeroporto Internacional de Maiquetía, nos arredores de Caracas, com oficiais militares da Venezuela enfileirados para saudar e apertar as mãos dos pilotos. Em seguida, russos e venezuelanos participaram de exercícios militares conjuntos.

“Os aviões russos que transportam mísseis voaram ao lado dos caças (Sukhoi) Su-30 e F-16 da Força Aérea venezuelana”, informou um comunicado do Ministério da Defesa da Rússia. “Os pilotos dos dois países praticaram interação no ar enquanto lidavam com tarefas de voo, incluindo um exercício de 10 horas em todo o Caribe”, detalhou o comunicado.

“Isso nós faremos com nossos amigos, porque temos amigos no mundo que defendem relações respeitosas e equilibradas”, afirmou o ministro da Defesa venezuelano, Vladimir Padrino.

Apesar da presença russa no Caribe, a visita desencadeou apenas uma rusga diplomática com os EUA. O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, declarou que os voos são pouco mais do que um “desperdício de fundos públicos” por “dois governos corruptos”.

O porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, considerou “inaceitáveis” as declarações de Pompeo e disse que “provavelmente não é muito apropriado que um país faça tais afirmações quando metade de seu orçamento de defesa pode alimentar toda a África”.

China

A China também fez investimentos e estabeleceu fortes laços comerciais na América Latina. No entanto, os esforços chineses são em grande parte exclusivamente econômicos. Um grande credor venezuelano, os chineses sempre demonstraram pouco interesse em acumular ativos venezuelanos ou fortalecer os laços políticos com o regime Maduro.

Na maior parte das vezes, a China se concentrou em tentar receber os empréstimos que fez ao governo da Venezuela. A Rússia, em contraste, tem repetidamente reestruturado, refinanciado ou recebido pagamentos em espécie da Venezuela. Por isso, sempre que precisa, Maduro encontra muito mais respaldo em Moscou do que em Pequim.  / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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