Venezuela dá corpo ao Mercosul, mas pode dificultar negociações

Para analistas, entrada do país no bloco pode dificultar relações comerciais com comunidade internacional.

Marcia Carmo, BBC

31 de julho de 2012 | 17h03

O Mercosul ganhará maior peso econômico com a integração da Venezuela, mas a forma como o país entra para o bloco e o discurso político do presidente Hugo Chávez podem gerar imprevistos para esta união, segundo analistas políticos e econômicos.

De acordo a avaliação dos ministros das Relações Exteriores do Mercosul, segundo informações do Itamaraty, o bloco "passará a ser ator importante em dois temas fundamentais para o futuro global: segurança energética e alimentar".

Com a Venezuela, o Mercosul contará com uma população de 270 milhões de habitantes, Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 3,3 trilhões e mais de 70% do território da América do Sul. O bloco passará a se estender do Caribe ao extremo sul do continente.

"Em tese é sempre bom integrar economicamente, mas desde que sejam obedecidos os acordos assinados e que não surjam questões comerciais como as (barreiras comerciais) argentinas", disse à BBC Brasil o professor de relações internacionais da Unesp (Universidade Estadual Paulista), Clodoaldo Bueno.

Com a Venezuela o Mercosul terá "maior dimensão econômica e comercial", ampliando sua agenda de produtor de alimentos e de insumos ao incluir um dos maiores produtores de petróleo do mundo, de acordo com a consultoria econômica Abeceb, dirigido pelo economista Dante Sica, ex-secretário de Indústria e de Comércio da Argentina e especializada em questões comerciais e de integração,.

"Mas é preciso considerar também que a incorporação da Venezuela pode dificultar ainda mais as negociações comerciais de relevância, como Mercosul e União Europeia", afirmou o estudo da consultoria argentina. De acordo com a Abeceb, o quinto integrante do Mercosul poderia tornar ainda "mais lenta" esta integração que já tem "dificuldades de consenso" para tomar algumas decisões.

"Pode sair caro incluir um país que tem mostrado uma relação conflituosa com a comunidade internacional", afirma o documento da consultoria privada. O desafio do Mercosul seria "absorver" estas diferenças.

Paraguai

A Venezuela tem uma economia muito maior que a do Paraguai. Para o ministro da Secretaria de Informação e Comunicação da Presidência paraguaia, Martín Sannemann, a entrada da Venezuela para o Mercosul durante a suspensão de seu país significa a troca do "irmão pobre pelo irmão rico".

Porém, apesar de reprovar a forma como foi excluído da decisão que trouxe a Venezuela para o bloco - o país está suspenso do grupo desde que seu Senado destituiu o ex-presidente Fernando Lugo em um processo relâmpago, que teria prejudicado seu direito de defesa - , o Paraguai não parece interessado em deixar o Mercosul.

Autoridades do governo de Assunção têm dito que a economia do país depende das economias do Mercosul - principalmente do Brasil. Estudo do Centro de Análises e Difusão da Economia Paraguaia (Cadep), dirigido pelo especialista em política econômica Fernando Masi, indicou que a suspensão do país do bloco poderia ser prejudicial à sua economia.

"O Mercosul permitiu que o Paraguai aumentasse suas exportações para outros mercados da região, especialmente os países da Aladi (Associação Latino-Americana de Integração). Mas, eventualmente, a suspensão do Paraguai do Mercosul pode afetar este comércio diante do esfriamento das relações diplomáticas", diz o documento da Cadep.

Atualmente, além do Brasil, outros países da região mantém suas embaixadas em Assunção sem a presença de seus embaixadores. A decisão política foi tomada após a destituição de Fernando Lugo da Presidência do país, no dia 22 de junho.

"Quase todas as embaixadas da região continuam sem embaixadores o que afeta a relação política do Paraguai com os outros países", disse um diplomata estrangeiro em Assunção.

Barreiras

Para Clodoaldo Bueno, o Mercosul "acabou há muito tempo" já que os acordos da integração não têm sido respeitados. Como exemplo, ele citou as frequentes barreiras comerciais impostas pela Argentina às importações que afetam produtos brasileiros.

Ele também criticou a forma como a Venezuela está sendo incorporada ao bloco ao mesmo tempo em que o Paraguai está suspenso. "Não estou de acordo sobre como a Venezuela está sendo incorporada. Acho que o Senado paraguaio representa pelo menos parte do povo paraguaio. Para mim, a Venezuela entra para o Mercosul pela porta dos fundos", disse.

O Senado paraguaio não ratificou o ingresso da Venezuela ao bloco - o que foi feito pelos congressos do Brasil, da Argentina e do Uruguai. Para ele, a decisão da entrada da Venezuela, com o Paraguai suspenso, "parece uma convergência ideológica".

Na sua opinião, o Mercosul "vai perdendo credibilidade" como união aduaneira. Ele sugeriu que o bloco deveria assumir que é uma área de livre comércio, deixando todos livres para acordos com outros países ou blocos. Na sua opinião, a situação leva o Mercosul a "perder peso" nas negociações com outros blocos. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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