Venezuela de Hugo Chávez vive momento crítico

Às 6 horas amanhã, os 24 milhões de habitantes da Venezuela estarão divididos em dois grupos. De um lado, os que estão contra o presidente Hugo Chávez Frías, no poder há três anos, eleito depois de um golpe frustrado em 1992. Estes atenderão ao movimento oposicionista e ficarão em suas casas durante a paralisação de 12 horas convocada Federação de Câmaras da Venezuela, que reúne o empresariado, e pela Central dos Trabalhadores da Venezuela. Deverá ser o maior protesto já realizado no país, com previsão de 1 milhão de estabelecimentos comerciais fechados e ruas desertas. Do outro lado estarão o defensores de Chávez, convocados pelo próprio presidente a manifestarem admiração, apoio e desprezo aos opositores. A vitória com ampla vantagem nas urnas e os 80% de aprovação, quando, em 2000, Chávez convocou novas votações e foi reeleito, depois da aprovação de uma nova Constituição, deram lugar a uma série de protestos que se espalham por vários pontos do país, especialmente da capital. Se a insatisfação da elite venezuelana com o que se considerava um estilo não só populista de esquerda, mas autoritário, já era grande, chegou ao auge com a aprovação de um pacote de 49 leis que mudaram os critérios para produção e exploração do petróleo - o bem mais precioso do país -, definiram novas regras para a posse de terra e deram amplos incentivos aos microempresários, ao mesmo tempo que aumentaram as exigências para os grandes. Nos últimos cinco dias, Chávez passou boa parte do tempo exortando a população, especialmente os pobres, índios e camponeses, a rejeitar o movimento oposicionista. Organizou manifestações em seu próprio favor, fez longos e contundentes discursos em frente ao Palácio Miraflores e ocupou cadeia de rádio e televisão. Enquanto isso, categorias profissionais e sindicatos patronais que ainda não haviam se manifestado engrossavam o coro dos descontentes. Até algumas emissoras de TV anunciaram a adesão à greve geral. Propagandas na televisão convidavam o povo a participar do protesto, simplesmente deixando de pôr o pé na rua das seis da manhã às seis da tarde. "Nosso movimento não tem nenhum elemento desestabilizador. queremos que o governo se solidifique. O que dissemos à população é que fique em casa, que seja um momento de reflexão", repetia, durante toda a sexta-feira, o presidente da Federação de Câmaras da Venezuela (Fedecâmaras), Pedro Carmona, em seguidas entrevistas. O mentor da paralisação, ou "Paro", como chamam os venezuelanos, insistia em esclarecer que não tinha nenhum envolvimento com passeatas de protestos que aconteceram nos últimos dias, organizadas por partidos de oposição a Chávez e sindicatos insatisfeitos com o governo. "Estamos totalmente desligados da marcha", reconfirmava o empresário. Com renda per capita de US$ 4.430, desemprego de 12,1% e inflação em 2000 de 13%, segundo a publicação inglesa Business Monitor International, a Venezuela tem cerca de 70% da população vivendo na pobreza. Caracas é um bom exemplo deste cenário. Um centro moderno, com edifícios altos e espelhados e alguns bairros de belas casas de muros baixos e jardins verdes, é cercado de extrema pobreza, barracos e favelas. Sem emprego, a população pobre recorre ao trabalho informal e agora se vê dividida entre acreditar nas promessas de uma vida melhor ou revoltar-se com a falta de resultados concretos da administração Chávez. O presidente, em seu favor, argumenta que, com todas as dificuldades, houve um crescimento do PIB, ano passado, de 3,2% e uma queda de dois pontos porcentuais no desemprego. Para Chávez, as manifestações são a reação natural de uma oligarquia que ocupou o poder durante décadas e acreditava não perder tão cedo o comando do país. Ao pré-candidato do PT à presidência do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, Hugo Chávez disse, na tarde da última sexta-feira, que não se preocupa com a possibilidade de golpe, porque tem o povo e também o Exército de seu lado. Chávez pode até estar convencido de que continuará no poder - alguns analistas falam na hipótese de um golpe do próprio presidente para reforçar ainda mais seus poderes -, mas, em um de seus muitos pronunciamentos, declarou: "Estou me lembrando do Chile de 1973", lembrando o golpe que derrubou e matou o presidente socialista Salvador Allende. "Mas aqui não tem Pinochet. A revolução bolivariana é vitoriosa", continuou o presidente. A cada uma dessas comparações de Hugo Chávez, o empresariado parece sentir-se mais estimulado a se organizar e tentar ganhar a adesão popular ao movimento contra o presidente. Alguns dos anúncios da Fedecâmaras mostram imagens de Chávez com declarações como "a revolução é pacífica, mas é armada". Ao que Carmona responde: "Não temos armas, temos objetivos cívicos e democráticos." A dois dias do Paro Civico, Carmona avisava: "Este não é mais um movimento da Fedecâmaras, é da sociedade venezuelana." A verdade é que Hugo Chávez, com um governo de poucas discussão com a sociedade civil e medidas extremamente controvertidas, deu motivos concretos para fortalecer uma insatisfação dos empresários que já dura três anos. Perdeu popularidade, embora ainda tenha em torno de 40% de avaliação positiva. Prefere dizer que a oposição é uma grita natural de quem teve interesses abalados e privilégios interrompidos. Para seus opositores, porém, a paralisação de amanhã não termina às 18 horas. "O Paro Cívido não é o fim. É o começo de um mo vimento pela retificação", anuncia o presidente da Fedecâmaras. Empresários, parte dos sindicatos de trabalhadores e parte da classe média começam amanhã a medir forças com o presidente sul-americano mais controvertido do momento. Chávez já deixou claro que não está disposto a ceder, muito menos a renunciar, apesar das longas teses nesse sentido defendidas por cientistas políticos. Os empresários, porém, também já deixaram claro que não medirão esforços para mudar o cenário atual, o que ficará marcado no movimento Dez de Dezembro. Se tudo sair como planejam seus organizadores, será o maior protesto que a Venezuela já viu. Em Caracas, a população mistura a a apreensão com o destino político do país com preocupações concretas sobre os efeitos da paralisação. Representantes dos supermercados fizeram questão de garantir que não há risco de desabastecimento e que os venezuelanos não precisam fazer estoques nem correr às lojas, porque a paralisação se limitará às doze horas. Muito menos fazer grandes gastos, como prevenção para um possível momento de grande turbulência social. A verdade é que insatisfeitos de diferentes calibres estarão amanhã protestando contra Hugo Chávez e seu governo. Há os pragmáticos, que querem revogação de algumas leis do pacote presidencial e preferem não fazer declarações públicas pela renúncia do presidente. Há os radicais, pregadres da pura e simples retirada de Chávez do Palácio Miraflores. Há os trabalhadores sem emprego que fazem revindicações genéricas por melhores condições de vida. Há históricos adverários do presidente que insistem na tese de que Chávez não tem mais a menor condição de permanecer no poder. Ouvido pelo canal de notícias Globovision, o cientista político Ernesto Mayz resumiu o pensamento desta última categoria de descontentes: "É preciso que o presidente se convença que tem de sair do governo. Será um gesto de nobreza." Mayz defende a tese de que Chávez assumiu amparado em altíssimos índices de aprovação porque a população pobre viu nele a solução para seus males e, três anos depois, continua a viver no mesmo cenário desolador. "Foi um apoio do povo de boa-fé", diz o cientista político, que defende a formação de uma frente de transição que assuma o lugar de Chávez. "Esta frente vai mostrar ao presidente que é possível fazer uma transição." Alguns manifestantes optarão pelo protesto caseiro, como prega a Fedecâmaras. Outros preferirão tomar as ruas, para mostrar descontentamento. Independentemente do tipo de manifestação, Chávez preparou sua resposta, embora repita a todo momento que os insatisfeitos têm direito de se manifestar. Amanhã, a mando do presidente, o dia da Força Aérea Venezuelana deverá ser comemorado com dezenas de aviões militares sobrevoando o território de quase 1 milhão de quilômetros quadrados. No encontro que teve sexta-feira com o petista Luiz Inácio Lula da Silva, Hugo Chávez concentrou-se na defesa de suas medidas e de seu modo de governar e deu um argumento que considera decisivo para acreditar que a manifestação não terá maiores conseqüências. Disse ao líder do PT que tem o povo e o Exército ao seu lado. Os opositores garantem que o povo pró-Chávez já é minoria e o Exército não está assim tão subordinado a seu comando. O Paro Cívico poderá ser um bom medidor do tamanho da oposição e do apoio a Hugo Chávez, que, sem dúvida, decidirá suas ações futuras a partir deste movimento Dez de Dezembro. Tem a opção de ouvir os argumentos dos insatisfeitos e a de endurecer para aplicar as novas leis a qualquer custo. Leia mais

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