Miraflores press/EFE/EPA
Miraflores press/EFE/EPA

Maduro culpa cepa do Brasil e decreta quarentena radical

Presidente venezuelano diz que o País se tornou ‘a maior ameaça do mundo’ na pandemia e afirma que Bolsonaro é ‘irresponsável’

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2021 | 07h07
Atualizado 22 de março de 2021 | 21h11

A Venezuela iniciou nesta segunda-feira, 22, uma “quarentena radical”, segundo termo usado pelo próprio presidente, Nicolás Maduro, para combater uma nova onda de casos de covid. As novas medidas, anunciadas no domingo, devem durar duas semanas, incluindo a Semana Santa. “Fazemos isso pela saúde da família, pela saúde do nosso povo”, justificou o presidente, atribuindo o aumento dos casos à variante brasileira. No início da pandemia Maduro resistiu à quarentena. 

Entre as medidas estão a suspensão de voos domésticos, o adiamento das aulas presenciais e o aumento dos testes. O governo também criou um plano para desinfetar comunidades com grande número de doentes e veículos usados pelo transporte público. 

Caracas amanheceu nesta segunda-feira com mais presença policial e postos de controle foram instalados em avenidas e rodovias para restringir a passagem. Mas, apesar da “quarentena radical” de Maduro, as lojas e os estabelecimentos comerciais não essenciais continuaram abertos e as pessoas transitavam pelas ruas com relativa normalidade. 

A determinação de Maduro vem em um momento de piora da pandemia no país. Pela primeira vez desde outubro, a Venezuela registrou mais de mil novos casos na semana passada. Este retorno ao “ponto zero”, como qualificou Maduro, provoca preocupação em Caracas, que tem o maior número de casos ativos e onde vários hospitais e clínicas privadas já não têm leitos para atender os pacientes de covid. 

“Estamos diante da presença de uma segunda onda, sem dúvida, que tem como causa fundamental a chegada da variante brasileira ao nosso país”, disse o presidente venezuelano. Ao se referir à cepa detectada no Brasil, Maduro também aproveitou para criticar a resposta de Jair Bolsonaro à pandemia, chamando o presidente brasileiro de “irresponsável”. Nas palavras do chavista, o Brasil se tornou “a maior ameaça do mundo” em termos de saúde pública.

Críticas

“É alarmante. Eu diria que está angustiante ver os relatos de São Paulo, do Rio de Janeiro e de todo o Brasil, e a atitude irresponsável da direita trumpista brasileira. A atitude irresponsável de Jair Bolsonaro com o povo do Brasil”, afirmou Maduro.

“O Brasil se tornou a maior ameaça do mundo em relação à pandemia do novo coronavírus, assim já reconhecem os especialistas de todo o mundo. O Brasil é uma ameaça para o mundo hoje. Por culpa de quem? De Jair Bolsonaro. Que em meio ao colapso, em vez de pedir ajuda aos distintos setores – científicos, médicos, políticos –, o que ele faz é confrontar, para que o povo não faça quarentena, para que o povo não use máscara. Uma loucura, de verdade. Algo que não tem nome.”

Segundo o balanço da pandemia apresentado por Maduro, a Venezuela tem uma taxa de 27 casos ativos de covid-19 para cada 100 mil habitantes. Segundo os dados mais recentes da Universidade Johns Hopkins, o país confirmou 817 novos casos no domingo, com 10 mortes.

Com cerca de 30 milhões de habitantes, a Venezuela registrou quase 150 mil infecções e 1.500 mortes por coronavírus, números questionados por ONGs, que relatam uma alta taxa de subnotificação. Enquanto em dezembro e janeiro o país registrava entre 200 e 500 novos casos por dia, em março esses números dispararam, superando a barreira dos 500 e chegando a 937, em 19 de março, e a 1.161, um dia depois.

A Venezuela estava intercalando uma semana “radical” – na qual se restringe a circulação e apenas comércios essenciais podem abrir – com uma “flexível”, na qual é permitido sair. Maduro informou que “a ocupação nos leitos hospitalares está aumentando”, sem fornecer números. Testemunhas falam que os hospitais públicos estão lotados.

 

No setor privado, a situação também é preocupante. “Hoje, temos ocupação completa no pavilhão de covid”, disse o doutor Herman Scholtz, presidente do Centro Médico Docente La Trinidad, uma das clínicas mais importantes de Caracas. “O aumento é exponencial. Das 11 clínicas privadas de Caracas, tivemos 100% de ocupação das UTIs. O número de pacientes aumentou e os casos são mais graves.”

Em fevereiro, o governo lançou um plano de vacinação com vacinas russas e chinesas. O país também receberá 60 mil doses da vacina de Cuba, seu aliado mais próximo.

Apesar das críticas a Bolsonaro, Maduro e o presidente brasileiro já estiveram alinhados sobre a resposta à pandemia. Em maio, Maduro defendeu publicamente o uso de cloroquina – medicamento sem eficácia comprovada para a doença, também defendida por Bolsonaro. Antes, em outra recomendação, ele incentivou o consumo de uma mistura de ervas com mel e limão como forma de combater uma infecção de covid-19. / REUTERS, AFP e EFE

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