Venezuela define hoje, nas urnas, força de Chávez para disputa de 2012

"O que queremos não é a maioria, mas a hegemonia indiscutível da Assembleia Nacional", anunciou na sexta-feira Aristóbulo Istúriz, coordenador de campanha do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), liderado pelo presidente Hugo Chávez. A declaração mostra o espírito com o qual o governo chega às eleições legislativas de hoje, que indicarão os novos 165 deputados federais.

Roberto Lameirinhas, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

A oposição - que já classifica o processo como "viciado" - vai para as urnas com a limitada meta de tirar do chavismo sua maioria de dois terços, numa eleição para a qual 17,6 milhões de venezuelanos estão aptos a participar.

No ano passado, Chávez e seus aliados na Assembleia redesenharam o mapa de distritos eleitorais de modo a favorecer o PSUV - unificando ou dividindo circunscrições de acordo com esse objetivo, sob a alegação de "aproximar o eleitor de seu local de votação". Desgastado pelos quase 12 anos de poder, a latente crise econômica agravada pela queda do preço do petróleo, o longo histórico de ações contra os meios de comunicação que lhe fazem críticas, o déficit energético que deixa boa parte do país às escuras de tempos em tempos e o crescimento descontrolado da criminalidade, o líder bolivariano vem experimentando seguidas quedas em seu índice de popularidade, segundo institutos de pesquisa venezuelanos. A aprovação de Chávez, que tinha mais de 70% em 2005, caiu para 57% no ano passado e tinha 37% no primeiro trimestre deste ano, afirmou ao Estado o diretor do instituto Datanálisis, Luis Vicente León.

Diante dessas cifras, estimam analistas, Chávez não hesitou em pôr toda a máquina bolivariana para tentar "massacrar" a oposição hoje, segundo suas próprias palavras, e assentar as bases para a disputa de mais um mandato, em 2012 - o quarto, levando-se em conta seu triunfo eleitoral de 1998, a renovação do mandato sob a Constituição de 1999 e a reeleição de 2006.

Para as eleições de hoje, o Datanálisis prevê para o PSUV 52% dos votos. Graças à manobra do redesenho, os 48% de votos da oposição renderiam não mais do que 52 cadeiras na Assembleia. Três assentos no Legislativo estão reservados a representantes dos povos indígenas.

"Nessas condições, é difícil qualificar esse processo como justo", diz Leonardo Viteri, deputado equatoriano que se opõe ao governo de seu país, convidado pela oposição venezuelana para atuar como observador eleitoral. "Não há independência de poderes nem o delicado balanço de pesos e contrapesos essencial para a manutenção de uma democracia não excludente."

As imperfeições do processo e a alegada parcialidade do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) levaram a oposição a boicotar a votação legislativa de 2005.

"Seja qual for o número de cadeiras que a oposição obtenha agora, a Assembleia deixará de ser uma jaula de focas onde apenas se aplaude as decisões do Executivo", diz o diretor do jornal de Caracas Tal Cual, Teodoro Petkof.

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