Venezuela despenca no abismo do caos social e econômico

ANÁLISE: The Washington Post

The Washington Post, O Estado de S.Paulo

10 Maio 2014 | 10h22

O jornal americano The Washington Post publicou em sua edição de quinta-feira o seguinte editorial:

Ao mesmo tempo que a Venezuela descamba para o caos social e econômico, os sucessores de Hugo Chávez atacam em todas as direções. Algumas das medidas adotadas têm algum teor pragmático. Com a inflação perto dos 60% e o desabastecimento chegando a 30%, o governo recentemente modificou seu bizantino sistema cambial para alocar mais dólares para as importações do setor privado. Pressionado pelo Brasil e por outros governos latino-americanos, o presidente Nicolás Maduro iniciou um diálogo com líderes da oposição mais moderados.

O governo, porém, tem recorrido à violência sistemática contra estudantes de oposição e outros ativistas. Desde meados de fevereiro, opositores em Caracas e em outras cidades realizam manifestações quase diárias, erigindo barricadas nas ruas e exigindo a "saída" do modelo Chávez de populismo autoritário. A resposta do governo resume-se a tiros, espancamentos, prisões ilegais e tortura de manifestantes ou de qualquer pessoa que tente documentar os abusos.

Um recente relatório da Human Rights Watch cita 45 casos de abusos envolvendo mais de 150 vítimas. A organização concluiu que houve "graves abusos praticados repetidamente por forças de segurança em diversos locais em três Estados e na capital".

Segundo a investigação, forças de segurança e bandos armados pró-governo trabalharam juntos para espancar ou atirar contra manifestantes desarmados, às vezes, à queima-roupa. Quase todas as vítimas também foram presas e submetidas a abusos psicológicos e físicos na prisão. O Ministério Público e o Poder Judiciário, segundo o relatório, "participaram (das violações) ou toleraram os abusos cometidos contra manifestantes e pessoas detidas, incluindo violações graves dos seus direitos a um devido processo legal".

Alguns dos manifestantes também recorreram à violência; 9 das 41 mortes registradas nos distúrbios foram de policiais. Mas, segundo a Human Rights Watch, nos 45 casos de abuso, nenhuma das vítimas estava envolvida em atividade criminosa ou de violência quando atacada pelas forças de segurança. Em 13 casos, agentes do governo agrediram jornalistas ou transeuntes que filmavam ou fotografavam as manifestações.

A brutalidade do governo, nunca vista na Venezuela em mais de uma década, parece que teve o efeito pretendido. O governo afirma ter acabado com os protestos em muitas cidades e os distúrbios em Caracas começaram a diminuir. A oposição está dividida: de um lado, moderados tentam obter concessões do governo, mas uma ala mais radical recusa-se a participar do diálogo com as autoridades.

Até agora, Maduro concedeu pouca coisa. Os negociadores do governo concordaram com o estabelecimento de uma "comissão da verdade" para investigar a violência, mas se recusaram a libertar presos políticos - incluindo o líder da oposição Leopoldo López que, como observou a HRW, "é mantido em prisão preventiva numa base militar há mais de dois meses, apesar de o governo não conseguir apresentar provas de que ele cometeu algum crime".

Os EUA têm apoiado as negociações políticas em Caracas e, ao mesmo tempo, deixam entrever que sanções podem ser decretadas no caso de elas fracassarem. No entanto, Maduro tem de ser mais pressionado se o objetivo é a implementação de reformas que possam interromper a queda livre da Venezuela. Estabelecer uma pena para aquelas autoridades que conduziram a repressão também seria um recurso útil. / Tradução e Terezinha Martino

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