Venezuela e Canadá: o petróleo é deles

Os Estados Unidos têm muitas razões para manter seu arriscado envolvimento na política do Oriente Médio, e não há dúvida de que a dependência do petróleo importado desempenha um papel muito importante. O fato, porém, é que as maiores reservas de petróleo no mundo não estão no Oriente Médio ? nem na Rússia, nem na costa da África Ocidental, nem na região do Mar Cáspio. Estão em dois países do Hemisfério Ocidental: Venezuela e Canadá. O problema é que elas consistem em betume (petróleo betuminoso) e outras formas de ?petróleo pesado? ? óleo enterrado em depósitos de areia, que requer um processo de refino especial para ser convertido no chamado ?syncrude? (petróleo de alcatrão). A transformação custa muito, mas o produto final tem todas as qualidades do petróleo leve convencional. E esses depósitos de petróleo pesado ocorrem em quantidades atordoantes. Ao longo da margem norte do Rio Orinoco, na Venezuela, numa região conhecida como a Faixa do Orinoco, a empresa estatal de petróleo venezuelana estima que 1,2 trilhão de barris de petróleo pesado estejam a poucos milhares de metros da superfície. Os depósitos do Canadá são ainda maiores; os cálculos variam de 1,6 trilhão a 2,5 trilhões de barris de betume (também chamado ?areias de petróleo? ou ?areias de alcatrão?). Cerca de 9% dos depósitos estão relativamente próximos da superfície e devem ter índices de recuperação muito altos ? ao menos 50% e possivelmente até 90%. Assim, o potencial total dos dois países quase iguala os 600 milhões de barris que estão nas reservas do Oriente Médio. O problema é que coletar e converter o petróleo pesado vai requerer enormes investimentos e avanços tecnológicos. Sendo muito viscoso, é difícil de ser retirado do solo e de transportar. Sua refinação é custosa e produz mais dióxido de enxofre, dióxido de carbono e outros gases que provocam o efeito estufa do que a produção e refino do petróleo convencional. É claro que expandir a produção de petróleo pesado para torná-la uma parte significativa de uma estratégia energética requer um investimento enorme. Por exemplo, as empresas petrolíferas estimam que, para conseguir um adicional de só 200 mil barris ao dia de petróleo pesado venezuelano convertido seria necessário investir US$ 3 bilhões em pesquisa e nova capacidade de refinação. Extrapolar esses números é uma coisa difícil de fazer, mas um cálculo feito às pressas indica que poderá custar mais de US$ 100 bilhões para elevar a produção diária venezuelana aos níveis sauditas. Portanto, os mentores da política americana talvez precisem decidir se os riscos de instabilidade do mercado global e as conseqüências para a política externa da dependência do petróleo do Oriente Médio são suficientemente graves para tornar prioritária a troca para o petróleo pesado. Fazer isso significaria persuadir as gigantes do petróleo a fazer enormes investimentos.

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