Carlos García Rawlins / Reuters
Carlos García Rawlins / Reuters

Venezuela é o 4.º país mais violento do mundo, diz ONU

Segundo estudo, país registra 55,4 mortes por armas de fogo a cada 100 mil habitantes

Roberto Lameirinhas, ENVIADO ESPECIAL, CARACAS, O Estado de S. Paulo

25 de agosto de 2015 | 19h42

CARACAS - Mesmo nos distritos mais ricos, a noite de Caracas termina às 22 horas. Permanecer nas ruas além desse horário é uma aventura perigosa. Para o governo de Nicolás Maduro, este é um tema tabu, mas a Venezuela é um dos países mais violentos do planeta, com 55,4 mortes por armas de fogo por cada 100 mil habitantes, segundo números recentes da Organização Mundial de Saúde. Em comparação, o mesmo estudo aponta o Brasil como o 18.º país mais violento, com 21,9 mortes por cada 100 mil habitantes. A Venezuela é o quarto.

Essas cifras, segundo o organismo da ONU, são indicativas de “violência endêmica”, um fenômeno de causas variadas, difícil de combater.

“Numa sociedade politicamente dividida como a venezuelana, não falta quem atribua o aumento da criminalidade a ações do chavismo, acusado pela oposição de fazer pouco para combatê-la e aproveitar-se da violência nos grotões urbanos mais pobres para impedir o crescimento da oposição nesses locais”, disse ao Estado a socióloga Ana Solís. “Claro que é uma leitura simplista da situação, motivada por fatores muito mais profundos.”

Entre os fatores, explica a especialista, está o adensamento demográfico das áreas urbanas, iniciada em princípios da década de 80, com o abandono dos campos e a busca de oportunidades após o fim do período de notável prosperidade decorrente da primeira crise do petróleo, na década anterior. A população de Caracas, na época, praticamente dobrou e chega hoje a mais de 4 milhões de pessoas – do total de pouco mais de 30 milhões da população nacional. 

Além disso, o governo fracassou em seu plano de desarmar a população – o país é um dos mais armados do mundo, segundo entidades internacionais – e os corpos policiais não foram capazes de conter a formação de gangues juvenis, que espalham o terror pela capital.

O tráfico de drogas domina áreas miseráveis dos “barrios”, como são conhecidos as favelas locais, e a prioridade das forças policiais é a de isolar essas populações dos distritos mais ricos.

"É importante lembrar, porém, que essas gangues armadas tiveram papel decisivo na reação à fracassada tentativa de golpe de Estado de abril de 2002, quando o então presidente, Hugo Chávez, foi retirado do poder por menos de 48 horas”, lembra a socióloga. “Provavelmente, a derrubada do governo se consolidaria se não houvesse a revolta dos 'bairros'.”

As políticas públicas de combate à violência são insuficientes e o sistema prisional venezuelano é o terceiro mais lotado do mundo, hoje está com ocupação de 270% de sua capacidade, de acordo com um levantamento feito no ano passado a pedido da revista britânica The Economist. O país só era melhor do que Haiti e Filipinas – que têm ocupação perto dos 300% da capacidade. 

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