Venezuela enfrenta paralisação amanhã

A maior queda de braço entre o presidente Hugo Chávez e seus opositores começa amanhã às 6h. Serão 12 horas de paralisação convocada por empresários e parte dos trabalhadores. Como diz o presidente Federação de Câmaras da Venezuela (Fedecâmaras), Pedro Carmona, a paralisação, protesto sem precedentes na história do país e representa o começo de um movimento organizado de contestação ao governo. Chávez, por sua vez, convocou a população a ocupar as ruas para repudiar a tentativa de tirá-lo do poder, repetindo o lema de que "nada nem ninguém vai parar a revolução." A resposta do governo acontecerá no dia 17 de dezembro, quando Chávez fará a grande festa do Relançamento do Movimento Bolivariano. Os organizadores do protesto, que pretendem manter as ruas totalmente desertas, com a população fechada em suas casas, calculam que pelo menos 8 milhões de trabalhadores vão aderir à manifestação. Chávez apelidou os opositores de "esquálidos" e é assim que se refere a eles em seus pronunciamentos. Segundo a Fedecâmaras, supermercados, lojas e indústrias devem parar seus trabalhos amanhã, somando 1 milhão de estabelecimentos fechados. O protesto, porém, não terá a participação do sindicato dos metroviários, que alegaram preferir recorrer à greve somente em casos de dificuldades nas campanhas salarias da categoria. O funcionamento do metrô de Caracas, portanto, está em princípio garantido. Os sindicatos de transportes de ônibus estão divididos, oque significa que pelo menos parte dos meios de transportes estará nas ruas. Funcionários públicos também se dividiram, mas há um grande temor de que sofram retaliações por parte do governo, se aderirem ao movimento. PacoteNa noite de sábado, parlamentares fiéis a Chávez anunciaram a intenção de abrir conversações na Assembléia Nacional sobre o pacote de 49 medidas baixadas pelo governo, que promovem mudanças profundas na economia do País. A oposição, porém, argumenta que as conversas não adiantam de nada, porque Chávez governa sem ouvir as instituições e, portanto, não está disposto de verdade a mudar as novas leis. O pacote de Chávez foi a gota d´água que fez os empresários partirem das críticas contumazes para o protesto organizado. Entre as mudanças que mais irritaram o empresariado, está o aumento da cobrança de royalties, de 15% para 30%, a serem pagos pelas empresas privadas que trabalham na exploração de petróleo. Os empresários do setor argumentam que as medidas inviabilizam a atuação da iniciativa privada na Venezuela. Chávez determinou ainda que o Estado seja sempre parceiro majoritário nas join-ventures do petróleo. Também a Lei de Terras está provocando protestos em todas as partes do país. Chávez passou a exigir comprovantes de titularidades das terras, proibiu a existência de propriedades com mais de 5 mil hectares e deu ao governo autonomia para abrir processos de expropriação quando julgar uma área improdutiva. Lei de PescaO terceiro principal ponto de conflito entre empresários e o governo é a Lei de Pesca, que dá ao governo plenos poderes para regulamentar o setor e prioriza a pesca artesanal e proíbe a pesca de arrastão, feita por grandes barcos, de empresas que depois industrializam e vendem os pescados. Com 24 milhões de habitantes, a Venezuela tem renda per capita de US$ 4.430, desemprego de 12,1% e inflação de 13% registrada em 2000. Com a população pobre calculada em 70% do total, o país vive um dos momentos mais delicados de seus últimos anos, diante a incerteza sobre o futuro, a partir deste movimento de Dez de Dezembro. Embora Pedro Carmona insista em um movimento para fazer o presidente mudar a forma de conduzir o governo, está cada vez mais clara a intenção da oposição de criar condições para tirar Hugo Chávez do poder. Na noite de sábado, começaram a chegar a Caracas os camponeses convocados por Hugo Chávez para participarem de manifestações em favor do governo, ao longo do domingo e durante todo o dia de hoje. Entre a população não engajada em movimentos pró ou contra o governo, há o temor de que haja confrontos entre manifestantes e policiais locais e da guarda nacional, que estarão nas ruas amanhã. Chávez garantiu que a polícia servirá apenas para garantir a ordem e não para reprimir os opositores. O fim de semana foi marcado por boatos, como o da renúncia do ministro do Interior e da Justiça, Luis Maquilena, figura-chave do governo. O próprio Maquilena desmentiu sua saída, dizendo que andou sumido nos últimos dias porque estava doente. A hipótese de golpe, porém, não se dissipa, mas volta ao cenário com a paralisação de amanhã.

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