Cristian Hernandez/AFP
Cristian Hernandez/AFP

Venezuela 'esquece' protocolos contra a covid-19 na campanha eleitoral

Pessoas sem máscara e aglomerações podem ser vistas em transmissões de comícios para as eleições parlamentares, marcadas para 6 de dezembro; quase 30 partidos de oposição boicotam o pleito, considerado fraudulento

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2020 | 13h00

CARACAS - A Venezuela saltou de meses de confinamento para comícios de rua reunindo multidões. Com a campanha para as eleições parlamentares de 6 de dezembro, os apelos insistentes para respeitar o distanciamento e usar máscaras para conter a covid-19 foram esquecidos.

O país acabou por seguir um caminho parecido com os Estados Unidos, em que o período pós-eleições foi acompanhado de recorde nos números de infecções, e o Brasil, em que candidatos chegaram até a se contaminar com o vírus durante a campanha para as eleições municipais.

Desde março, em um país no sétimo ano consecutivo de recessão, o presidente Nicolás Maduro decretou uma quarentena que restringiu as atividades econômicas, aulas presenciais, celebrações religiosas, visitas a parques, voos comerciais, viagens entre regiões e até festas particulares.

"Zero rumbas, zero festa, zero cañandonga (licor)", afirmou o presidente após declarar estado de alarme, destacando que o "único remédio" contra a covid-19 era a quarentena e a máscara e lançando uma campanha para que os venezuelanos ficassem em casa.

Em contraste, em 3 de novembro, com uma chuva de papéis caindo de uma grande plataforma, candidatos do partido no poder, incluindo Cilia Flores, esposa de Maduro, se dirigiram a uma multidão que dançou e agitou faixas em uma praça de Caracas. O comício, após oito meses de proibição de eventos públicos, marcou o início de uma campanha que deu luz verde a grandes concentrações em estádios, praças e avenidas.

Isto, quando o governo socialista informa mais de 101.700 infecções e quase 900 mortes por coronavírus no país de 30 milhões de habitantes, números questionados pela oposição e por ONGs.

Preocupados, sindicatos de saúde do Estado de Zulia, ao oeste do país, um dos mais afetados pela covid-19, assinaram no dia 24 de novembro uma declaração conjunta de "alerta sanitário", na qual pedem a proibição de atos que envolvam aglomerações.

"É alarmante observar os graves riscos com a série de atividades em massa convocadas para comemorações, eventos políticos e eleitorais, e nas quais milhares de pessoas participam sem resguardar a proteção", diz o texto.

Multidões

A televisão estatal transmite comícios políticos, nos quais as pessoas são observadas sem máscaras e amontoadas, enquanto exibem mensagens que convidam os venezuelanos a adotar proteções contra a covid-19, com distanciamento social, máscara e lavagem das mãos.

O próprio Maduro pediu aos candidatos que façam uma campanha "biossegura" e evitem as multidões. "Continuo vendo muita gente sem máscara na campanha eleitoral", disse. "Peço, pela saúde de vocês, que a campanha eleitoral não seja um fator multiplicador do coronavírus", insistiu.

No entanto, na campanha para as eleições legislativas, boicotadas por quase 30 partidos que compõem a maioria da oposição do país, que consideram o pleito uma fraude, os protocolos sanitários veiculados com insistência têm sido omitidos em atos do governante Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).

Diante de uma doença "altamente contagiosa" que se espalha facilmente, "atividades de proselitismo político" devem ser realizadas com responsabilidade, disse Jaime Lorenzo, diretor da ONG Médicos Unidos da Venezuela.

À frente do boicote às eleições, o presidente do Parlamento Juan Guaidó, reconhecido como presidente da Venezuela por 50 países, incluindo os Estados Unidos, incentiva as atividades de rua para promover uma consulta popular independente com a qual espera se manter na luta para tirar Maduro do poder.

Em uma assembleia com vizinhos, Guaidó apertou mãos e foi cercado por cerca de 200 pessoas, algumas delas sem máscara. "A Venezuela está viva", disse ele ao convidar a participar da consulta marcada para 7-12 de dezembro contra as votações parlamentares.  / AFP

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