Miraflores Palace/Handout via REUTERS
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Venezuela estreia nova moeda com parte do comércio fechada e desconfiança da população

'Bolívar soberano' entra em vigor após Nicolás Maduro cortar cinco zeros do pacote monetário anterior e anunciar aumento de 3.500% no salário mínimo a partir de setembro; medidas são inviáveis e devem piorar hiperinflação, dizem especialistas

O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2018 | 11h43

CARACAS - As novas cédulas da moeda venezuelana, o bolívar soberano, sem cinco zeros, entraram em circulação nesta segunda-feira, 20, na Venezuela em meio a falta de informação, lojas fechadas, pane no sistema bancário e temor da população em relação ao pacote econômico. As novas medidas, apelidadas de “Maduraço”, tentam controlar a hiperinflação, projetada em 1.000.000% para 2018 pelo FMI, ante uma crise devastadora que levou milhões de venezuelanos a abandonar o país. A oposição convocou para esta terça-feira, 21, protestos contra as medidas em todo o país.

Tomados pela incerteza, muitos comerciantes fecharam suas lojas no fim de semana em Caracas e em outras cidades, depois de meses de uma economia atingida por uma hiperinflação projetada em 1.000.000% para 2018 pelo FMI, e longas filas nos postos de gasolina ante um anunciado aumento dos preços.

Maduro, confrontado com uma enorme insatisfação popular, garante que a emissão de novas cédulas será o ponto de partida para "uma grande mudança". A maior nota será de 500 bolívares (cerca de US$ 7 no mercado negro).

No entanto, os especialistas consideram inviável um programa que inclui um aumento do salário mínimo de quase 3.500% a partir de 1º de setembro, um novo sistema cambiário que resultará numa macrodesvalorização e altas do combustível e impostos.

O presidente também anunciou que o governo assumirá por 90 dias o aumento salarial que deverão realizar as pequenas e médias empresas.

"É uma coisa de louco", declarou Henkel García, diretor da consultora Econométrica, ao considerar que o reajuste dos salários implicará um novo aumento da massa monetária, raiz da hiperinflação.

Com uma indústria do petróleo em queda vertiginosa e sem financiamento internacional, o acesso a dinheiro fresco é inviável.

A produção de petróleo - fonte de 96% das receitas - desabou de 3,2 milhões de barris diários em 2008 a 1,4 milhão em julho, enquanto que o déficit fiscal se aproxima dos 20% do PIB, segundo consultoras privadas.  

"Se você mantém o déficit e a emissão desordenada de dinheiro para cobrir esse déficit, a crise continuará se agravando", destacou o economista Jean Paul Leidenz.

A emissão das novas cédulas chega apenas 20 meses depois que o governo lançou cédulas de alta denominação, diluídas pela inflação e a desvalorização acelerada.

Esta é a segunda reconversão em uma década, depois que o falecido  presidente Hugo Chávez (1999-2013) eliminou, em 2008, três zeros da moeda e criou o "bolívar forte", que agora se chama "bolívar soberano".

Crise regional

A aplicação do programa de Maduro coincide com graves tensões migratórias e o êxodo em massa de venezuelanos. A ONU avalia que 2,3 milhões de venezuelanos imigraram para fugir da crise.

O Brasil enviará tropas a sua fronteira depois que, em reação ao assalto de cidadãos venezuelanos, os moradores da cidade Pacaraima, na fronteira de Roraima com o país vizinho, queimaram no sábado os acampamentos de imigrantes venezuelanos, que chegaram em massa no último ano ao País.

A Venezuela exigiu que as autoridades brasileiras protejam seus cidadãos.

O Equador começou no sábado a bloquear a passagem de venezuelanos em suas fronteiras, exigindo passaporte invés de carteiras de identidade.

O Peru adotou medida similar e, em função disso, a Colômbia teme que milhares de venezuelanos tentem entrar em seu território.

Ante o aumento das tensões, o secretário-geral da Organização de Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, pediu para que se "mantenha as portas abertas ao povo da Venezuela, vítima da pior crise humanitária que o continente já viu".

Protestos contra Maduro

Por causa destas medidas, três partidos opositores, a Causa R do dirigente Andrés Velásquez, o Vontade Popular (VP) liderado pelo político preso Leopoldo López e o Primeiro Justiça (PJ) do ex-presidente do Parlamento, convocaram para terça-feira uma greve e um protesto nacional.

Segundo explicou Valásquez, a greve será "por tempo definido de 24 horas", embora também tenha dito que este é "um primeiro passo de uma agenda de luta que certamente vai ter outras interrupções".

"As medidas anunciadas na sexta-feira passada não são nenhum plano de recuperação econômica para o país. Pelo contrário, o que representa para o povo venezuelano é mais fome, é mais ruína, mais pobreza, mais sofrimento, mais dor, mais inflação", disse o político.

Não está claro como a greve será articulada sem a participação de outros partidos opositores.

Manifestações por direitos trabalhistas, contra a falta de alimentos e medicamentos e as falhas de serviços como água e luz se multiplicam, com uma oposição dividida e fragilizada.

O setor privado, além disso, trabalha apenas a 30% de sua capacidade devido ao colapso da economia, enquanto o governo exerce um férreo controle sobre o funcionalismo público. / AFP, EFE e REUTERS

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