Miraflores Palace/Handout via REUTERS
Miraflores Palace/Handout via REUTERS

Venezuela elimina câmbio preferencial para tentar controlar hiperinflação

Em vigor há cinco anos, o sistema era apontado por economistas críticos ao chavismo uma das causas da crise econômica do país e uma fonte de corrupção dentro do governo

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2018 | 11h41
Atualizado 30 Janeiro 2018 | 20h41

CARACAS - O governo da Venezuela acabou com o sistema de câmbio preferencial, que reservava a estatais um regime cambial de 10 bolívares por dólar. O objetivo da medida, que não foi acompanhada da liberalização completa do câmbio, é combater a hiperinflação, que pode chegar a 13.000% em dezembro, segundo estimativas do FMI.

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Em vigor há cinco anos, o sistema de bandas era apontado como uma das causas da crise econômica e uma fonte de corrupção dentro do governo. A oposição acusa os militares e a burocracia estatal de usar o dólar preferencial – comprado a 10 bolívares – para especular no mercado negro – onde a moeda americana chega a 250 mil bolívares. 

O fim do câmbio de 10 para 1 não elimina as distorções cambiais na Venezuela, mas diminui a pressão sobre o bolívar. Para o economista José Guerra, a medida tem um fundo eleitoral. “A desvalorização do bolívar aumenta o custo da dívida, mas melhora o caixa da PDVSA (estatal do petróleo), que terá mais dinheiro para financiar a campanha eleitoral”, disse ao Estado.

Segundo Guerra, no médio prazo, a medida deve acelerar ainda mais a inflação, que chegou a índices astronômicos. Entre novembro e dezembro, os últimos dados medidos por empresas privadas, o preço da cesta básica subiu 129,5%, de 9,3 milhões de bolívares, para 16,5 milhões. 

Com o salário mínimo fixado em 248,5 mil bolívares, para comprar uma cesta básica, uma família de cinco membros precisa de 66 salários mínimos. Um litro de óleo de cozinha, por exemplo, custa 70 mil bolívares, quase 30% de um salário mínimo. 

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Café com leite. No modelo anterior, empresas do Estado compravam o dólar a apenas 10 bolívares para importar remédios e alimentos. Empresas privadas recorriam ao câmbio de 3.345 bolívares por dólar. Agora, ambas comprarão moeda estrangeira na taxa unificada, que o governo promete ser variável. 

O exemplo mais concreto do impacto da hiperinflação é o “índice café com leite”, criado pela agência Bloomberg depois que o governo deixou de publicar índices inflacionários em 2015. A escolha de dois produtos que ainda são encontrados em qualquer padaria do país, permite medir a variação de preços com mais fidelidade. Segundo o índice, no último ano, a bebida subiu 3.991%.

A distorção provocada pelo sistema de câmbio complementar era tanta que, com base no dólar comprado pelas estatais, uma cartela com 15 ovos, encontrada a 275 mil bolívares nos supermercados de Caracas, custaria US$ 27,5 mil. Pelo câmbio das empresas privadas, US$ 82. No mundo real, pelo câmbio negro, a cartela de ovos custa US$ 1 – 90% de um salário mínimo. 

Essa distorção ocorre porque o bolívar é valorizado artificialmente. A tentativa do governo com a nova diretriz é aliviar parcialmente esse cenário. “É um passo que requer muitos ajustes para que tenha êxito”, disse o diretor do Datanálisis Luis Vicente León. “Mas é impossível abrir o câmbio pela metade.” 

Alertas. Alguns economistas venezuelanos elogiaram a nova regra como “o início de uma mudança”, mas alertaram que ela é insuficiente para combater a alta de preços se o governo continuar a restringir a oferta de dólares, manter o congelamento de preços e a impressão de dinheiro sem lastro. 

“Seria um bom começo se a taxa unificada fosse flutuante, mas o governo já prometeu liberar o câmbio anteriormente e isso nunca ocorreu de fato”, explicou ao Estado o economista Orlando Ochoa. “O caráter surreal de uma taxa preferencial para o Estado a 10 bolívares, com o câmbio negro em 250 mil era um incentivo à corrupção.”

A hiperinflação, que tecnicamente começou em outubro, quando a alta mensal de preços superou os 50%, agravou os efeitos da crise econômica. Os salários não acompanham a alta de preços e o poder de compra da população, principalmente a mais pobre, cai diariamente. 

A falta de alimentos e remédios tornou-se crônica. A fome aumentou o número de pessoas que reviram lixo nas grandes cidades em busca de comida. Ontem, caminhões carregados de farinha de milho foram pilhados em Puerto Cabello e Porlamar, na Ilha Margarita. 

Na primeira quinzena de janeiro, foram 110 casos de saque – cinco vezes mais que o mesmo período de 2017. O caos se estende a empresas de água, luz, internet e telefone. Sem orçamento para manutenção, elas têm enfrentado problemas para manter os serviços funcionando. 

 

 

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