EFE/Jorge Castellanos
EFE/Jorge Castellanos

Venezuela indicia policial por morte de jovem, mas pai contesta versão oficial

Denúncias. Parentes e testemunhas garantem que Kluiverth Roa, de 14 anos, foi morto por munição real, não por bala de borracha como afirma a procuradora-geral; Maduro acusa paramilitares da Colômbia de cruzar a fronteira para levar a violência ao país

CARACAS, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2015 | 02h01

Javier Mora Ortiz, o policial que admitiu ter feito o disparo que matou o adolescente Kluiverth Roa em um protesto na terça-feira, foi indiciado ontem pela Procuradoria-Geral da Venezuela por homicídio doloso qualificado. O pai do jovem de 14 anos, Erick Roa, pediu ontem ao presidente Nicolás Maduro que "pare de atirar contra o povo venezuelano".

A procuradora-geral Luisa Ortega disse que o adolescente foi morto por uma bala de borracha e não por munição real, o que foi contestado pelo pai de Kluiverth e por estudantes que participaram do protesto e dizem ter visto sinais de pólvora no corpo de rapaz.

"O policial se apresentou ao tribunal e foi indiciado por homicídio doloso qualificado e uso indevido de arma orgânica", disse Luisa. "Dois promotores estão no caso e nas próximas horas farão uma reconstituição do crime e entrevistarão algumas testemunhas", acrescentou a procuradora.

Em janeiro, o governo de Maduro publicou uma resolução na qual autoriza o uso de munição real e armas de fogo em protestos. Ontem, a procuradora-geral disse ser contra a resolução. Ela informou que nove pessoas foram presas nos protestos de terça-feira em San Cristóbal, sem esclarecer se os detidos são policiais ou manifestantes.

A morte de Kluiverth, que foi enterrado ontem em San Cristóbal, desencadeou protestos em várias cidades e estudantes pediram ao Ministério da Justiça que anule a resolução que permite o uso de armas de fogo em manifestações. Em Mérida, quatro pessoas ficaram feridas em confronto com a polícia.

Ao contrário do que ocorreu em outras mortes de manifestantes no ano passado, o chavismo apressou-se em condenar a morte do estudante e em apresentar um culpado. Horas após a morte de Kluiverth, a ministra do Interior, Carmen Meléndez, anunciou a prisão do policial.

No fim da noite, Maduro condenou a violência, apesar de ter acusado os manifestantes de agredir os policiais. Ontem, o presidente venezuelano disse ter colocado as forças policiais e militares em alerta, pois tinha informações de que paramilitares colombianos vestidos de civil tinham cruzado a fronteira para levar a violência à Venezuela.

Luto. O pai de Kluiverth questionou ontem a versão da Procuradoria. "A bala que matou meu filho não era de borracha, era de chumbo. Peço à polícia venezuelana que saiba contra quem está atirando", disse Roa à CNN em espanhol. "Peço a Maduro que pare de atirar contra o povo venezuelano. Espero que as autoridades prendam o culpado e ele receba a pena máxima."

Testemunhas dizem que o jovem e outros alunos de uma escola se juntaram a um protesto de universitários contra a escassez de alimentos. Agentes que estavam de moto se dirigiram às ruas onde ocorria o protesto. Kluiverth teria se escondido debaixo de um carro, o policial o teria encontrado e disparado à queima-roupa. A versão oficial diz que manifestantes tentaram roubar as motos, o agente teria disparado contra o chão e a bala teria atingido Kluiverth.

O secretário americano de Estado, John Kerry, declarou ontem que a Venezuela continua caminhando na direção errada em razão das prisões de opositores políticos e da repressão policial aos manifestantes. Ele também criticou as "falsas acusações" de Caracas sobre um suposto apoio de Washington a uma tentativa de depor Maduro. / EFE e AFP

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