Venezuela investigará 'roubo' de dólares de órgão oficial

Nicolás Maduro anunciou ontem a criação de uma comissão para investigar o Cadivi, que administra moedas estrangeiras

CARACAS, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2013 | 02h04

A Venezuela criará uma comissão para investigar o "roubo" de milhões de dólares do Cadivi, órgão oficial que administra moedas estrangeiras. O anúncio, feito ontem pelo presidente Nicolás Maduro, faz parte das medidas econômicas tomadas depois que a Assembleia Nacional lhe concedeu poderes para legislar sobre temas econômicos por meio de uma Lei Habilitante, aprovada em novembro.

"Vou nomear uma comissão presidencial. Vou convocar deputados e deputadas, peritos e auditores para que sejam esclarecidos os mecanismo do roubo dos dólares da república por meio da Comissão de Administração de Divisas (Cadivi)", afirmou o presidente.

Em entrevista ao jornalista e vice-presidente venezuelano entre 2002 e 2007, José Vicente Rangel, Maduro prometeu que não esconderá da população o resultado da investigação da comissão. "Vou expor ao país a verdade."

Segundo o líder bolivariano, por meio do Cadivi e do sistema Complementar de Administração de Divisas (Sitme), criado em 2010, foram designados dólares para empresas fictícias, que não importaram mercadorias. "Há responsabilidade de funcionários, sem dúvida", declarou.

Na sexta-feira, Maduro anunciou o segundo pacote de medidas para conter o que o governo chama de "guerra econômica contra a burguesia parasitária e o imperialismo". Além de tabelar o preço do aluguéis para lojas e ordenar a prisão imediata de comerciantes que elevarem preços, o governo criou o Centro Nacional de Comércio Exterior e da Companhia de Comércio Exterior para "desenvolver a política monetária e organizar as importações, exportações e investimentos no exterior".

Os dois órgão serão responsáveis por fiscalizar o Cadivi e o Sitme. Ontem, o presidente explicou como funcionará parte do mecanismo que será adotado em breve. Segundo Maduro, "todos que receberem dólares do país deverão assinar um contrato de cumprimento" e os produtos que forem importados com os dólares "preferenciais" serão marcados com uma etiqueta verde.

Eleito em abril por uma pequena margem de vantagem, o sucessor de Hugo Chávez luta para recuperar a economia venezuelana, que sofre com a inflação - de 54% nos últimos 12 meses -, com o desabastecimento de produtos da cesta básica e a falta de dólar - a moeda estrangeira chega a custar até dez vezes mais no mercado negro, ante os 6,30 bolívares do câmbio oficial.

Críticas. Ontem, o escritor peruano e Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa afirmou que, apesar das democracias imperfeitas, a América Latina "está saindo pouco a pouco do poço". Para o escritor, a exceção seria a Venezuela, que se aproxima "cada vez mais de uma ditadura".

"Apesar de não vermos com toda a clareza, a América Latina está saindo pouco a pouco do poço em que esteve praticamente todos os anos de sua história republicana", afirmou durante a Feira do Livro de Guadalajara, no México. "Na maior parte da América Latina, há razões não apenas para ser otimista, mas para se comprometer."

Conhecido por ser crítico aos governos bolivarianos, Vargas Llosa afirmou que "as ditaduras, as semiditaduras ou as semidemocracias" são uma minoria e representam um "anacronismo com o restante do continente".

"A Venezuela se aproxima cada vez mais de uma ditadura", advertiu, ao defender que Nicolás Maduro, apesar de ter sido "abençoado" por Chávez antes de sua morte, está fazendo "essa sociedade retroceder".

O vencedor do Nobel citou Chile, Uruguai, Brasil e Peru como exemplos positivos, nos quais as instituições democráticas começam a funcionar. / AFP

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