Felipe Frazão/Estadão
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Venezuela libera 197 brasileiros que estavam retidos na fronteira

Maduro autoriza abertura parcial da fronteira com Roraima, bloqueada há seis dias; primeiro grupo a atravessar era formado por pacientes que se submeteram recentemente a procedimentos cirúrgicos no país vizinho

Felipe Frazão, Enviado Especial / Pacaraima (RR), O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2019 | 21h10
Atualizado 27 de fevereiro de 2019 | 11h04

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, autorizou na noite desta terça-feira, 26,  a abertura parcial da fronteira com o Brasil, bloqueada há seis dias, para a passagem de brasileiros que estavam retidos. Os primeiros a cruzar foram 9 pacientes submetidos a cirurgias e 4 acompanhantes. À noite, 152 brasileiros voltaram ao país, assistidos pelo consulado. Dos 32 caminhoneiros que chegariam, 20 devem voltar nesta quarta-feira, 26, e 12 vão seguir na Venezuela. 

O primeiro grupo de 13 brasileiros atravessou a fronteira depois de negociações entre Itamaraty e governo da Venezuela, cujas tratativas envolveram também oficiais militares dos dois países em Pacaraima e em Santa Elena do Uairén. Dos 13, 9 haviam foram submetidos a cirurgias em hospitais e clínicas particulares dias antes. A maior parte passou por procedimentos estéticos, como cirurgia de varizes e nos seios, mas havia também casos de operações bariátricas e oftalmológicas.

Dos 13, nove haviam feito cirurgias em hospitais e clínicas particulares dias antes. A maior parte passou por procedimentos estéticos, como cirurgia de varizes e nos seios, mas havia também casos de operações bariátricas e oftalmológicas.

Os pacientes que voltaram ao Brasil saíram da cidade de Puerto Ordaz às 5 horas da manhã e só conseguiram entrar no Brasil às 18 horas. No trajeto, passaram por revistas em 25 barreiras militares.

Os demais brasileiros, entre turistas e residentes na Venezuela, atenderam aos chamados do consulado brasileiro ou pediram ajuda espontaneamente para voltar. Os postos consulares do Brasil na Venezuela enviaram e-mails com questionários sondando o interesse dos brasileiros em deixar o país no caso de um agravamento da crise local. 

Segundo um assessor do Itamaraty, cerca de 2 mil pessoas receberam o e-mail. Há hoje 13 mil brasileiros vivendo na Venezuela. Do total contatado, 600 manifestaram interesse em receber ajuda para sair.

Políticos e jornalistas venezuelanos acompanharam o retorno dos brasileiros, segundo a pedagoga Carla Pinheiro, de 39 anos. Moradora de Boa Vista, ela acompanhava a mãe aposentada. “A sensação de voltar é muito boa”, disse Carla. “Não tínhamos notícia de quase nada. Tive medo de não poder atravessar de volta”, disse a aposentada Ana Sueli Pinheiro, de 65 anos, que realizou uma operação na retina.

A garimpeira paraense Karen Porto, de 33 anos, disse que escolheu fazer uma cirurgia bariátrica em razão da diabetes e ficou oito dias na Venezuela. Ela disse ter planejado fazer a cirurgia no país vizinho cinco anos atrás. “Resolvi fazer para ter uma opção de vida melhor. Quando decidi, não sabia que a situação estava tão confusa assim. Lá há bons médicos. Outras amigas já fizeram a cirurgia porque lá é barato”, disse. “Soube que a fronteira estava fechada pelos jornais, mas não tive medo de voltar, porque sabia que uma hora ou outra as coisas se resolveriam.”

O vice-cônsul Ewerton Oliveira realizou as tratativas em solo com o general A. Bermúdez, da Força Armada Nacional Bolivariana. As negociações demoraram cinco dias por causa de instruções que os militares esperavam de Caracas. “A gente procurou sensibilizar sobre a necessidade de trazer de volta essas pessoas ao País de origem.

Tínhamos idosos, crianças, recém-nascidos e pessoas doentes. Eles justificam o bloqueio da fronteira com a ajuda humanitária, eles dizem que não pediram. Eu não entrei no mérito político”, disse Oliveira. O vice-cônsul afirmou que considera “até certo ponto normal” o impedimento de passagem, por causa da soberania da Venezuela. Ele minimizou riscos aos brasileiros residentes em Santa Helena do Uairén, embora diga que a cidade está “sem alimentação”. “Cada um vê o perigo de uma maneira”, ponderou.

Um dia antes, ele já havia conseguido atravessar um grupo de 25 turistas mochileiros que faziam uma caminhada no Monte Roraima, principal destino de aventura da região. Na volta, eles haviam se surpreendido com um cenário de caos e tiroteios na cidade de Santa Elena.

 

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