EFE/PRENSA MIRAFLORES
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Chavismo chama de 'fake news' crise humanitária que provocou migração em massa

Ministro de Comunicação do governo de Nicolás Maduro diz que ida de venezuelanos para outros países foi usada de forma 'bárbara, criminosa e xenófoba por governos xenófobos e racistas' e nega que país passe por situação crítica

O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2018 | 11h11
Atualizado 30 Agosto 2018 | 15h29

CARACAS - "Fake news". Foi este o termo usado pelo governo de Nicolás Maduro para minimizar a crise humanitária que resultou na migração de venezuelanos para a América Latina e que levou o Brasil a deslocar tropas para a fronteira dos dois países.

O fato de haver "venezuelanos que tenham ido para outros países foi usado de maneira bárbara, criminosa e xenófoba por governos xenófobos e racistas", afirmou na noite de quarta-feira , 29, o ministro de Comunicação, Jorge Rodríguez, que chamou de "fake news" a relação feita entre os fluxos migratórios e uma "crise humanitária". 

Prometendo que o plano econômico em vigor desde 20 de agosto salvará o país, Maduro convidou os venezuelanos a voltarem para o país. "Digo aos venezuelanos que queiram deixar o escravagismo econômico: deixem de lavar banheiros no exterior e venham viver na pátria", disse Maduro na terça-feira em sua primeira declaração sobre o tema nessas semanas em que o êxodo disparou.

Na maior crise migratória latino-americana em décadas, milhares de venezuelanos fugiram para a Colômbia, Equador, Peru, Brasil, Chile e Argentina, diante da falta de comida e medicamentos, em meio à hiperinflação que o FMI projeta em 1.000.000% para 2018.

Diante desse fluxo, o presidente Michel Temer ordenou o envio das Forças Armadas ao Estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela, duas semanas depois de um conflito entre os imigrantes venezuelanos e moradores do município de Pacaraima. Além disso, Temer adiantou que poderão se "distribuir senhas" para limitar o fluxo de imigrantes no Estado.

Crise regional

O fluxo atinge toda a América Latina: no Brasil, no Peru e no Panamá houve surtos xenófobos na população local que vê nos imigrantes uma ameaça a seus empregos e serviços básicos. Salvo na Costa Rica, os países centro-americanos, incluindo a Nicarágua - aliada da Venezuela -, impuseram restrições aos venezuelanos.

"É claro que a migração de venezuelanos subiu na região. É um tema complexo, mas é coisa de ver os número e que, sim, subiu", disse Marcelo Pisani, diretor da Organização Internacional para as Migrações (OIM) para a América do Norte, América Central e Caribe. 

Para o analista e ex-embaixador britânico em Cuba, Paul Hare, Maduro é "visto não somente como um líder que debochou da Constituição venezuelana, mas também como uma ameaça para a estabilidade" regional.

De ônibus ou à pé, famílias inteiras se dirigem à vizinha Colômbia. Alguns ficam e outros seguem rumo ao sul do continente. Muitos foram acolhidos em abrigos, alguns acampam nos terrenos baldios e parques ou vivem de doações.

Saí "buscando uma vida melhor para meus filhos e minha família porque lá um salário não dá para nada", disse Jackson Durán, de 22 anos, que chegou a Quito após a travessia de 20 dias.

Mais de um milhão de venezuelanos entraram na Colômbia no último um ano e meio, mais de 400.000 no Peru e cerca de 300.000 no Chile. No Equador neste ano entraram 600.000 e cerca de 100.000 vivem na Argentina.

Falta de preparo

"Nenhum dos países está preparado para tratar dos migrantes e do impacto que sua chegada terá nas populações. É necessário um enfoque comum", advertiu Peter Hakim, do Diálogo Interamericano.

Segundo a ONU, 2,3 milhões de venezuelanos (7,5% da população de 30,6 milhões) vivem no exterior. Destes, 1,6 milhão migrou a partir de 2015, quando a crise se intensificou.

O êxodo acelerou depois que o Peru e o Equador decidiram exigir passaporte aos venezuelanos, medida que Quito suspendeu por ordem judicial. No Peru, podem entrar sem o documento venezuelanos desde que peçam refúgio.

Nesse contexto de urgência, Quito convocou uma reunião regional para o começo da próxima semana, enquanto que Bogotá e Lima decidiram compartilhar uma base de dados de migrantes. O Peru declarou emergência sanitária em sua fronteira com o Equador.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) também convocou uma sessão extraordinária de seu conselho permanente para o dia 5 de setembro na sede do organismo regional em Washington.

Especialistas acreditam que a migração aumentará a pressão contra Maduro. "Desafiou muitos padrões de comportamento político na região (...), que agora tem uma motivação coletiva para colocar a Venezuela de novo nesse caminho (da democracia)", opinou David Smilde, do centro de pesquisa WOLA, em Washington.

Crise ou 'fake news'?

O governo socialista atribui o êxodo a uma "campanha da direita" e disse estar certo de que os migrantes voltarão, porque o plano econômico de Maduro, que inclui um aumento de 3.400% do salário mínimo - que passará para o equivalente a US$ 30 em setembro -, dará resultado.

Acolhidos pelo plano "Retorno à pátria", cerca de 90 venezuelanos retornaram na segunda-feira. Mas muitos temem, entretanto, uma maior escassez e o aumento de preços. "As coisas estavam caras, mas as conseguíamos. Agora estão mais caras e não se conseguem mais. Eu esperava que (com as medidas) fosse melhor, mas não", disse Edilé Bracamonte, cuja filha foi para a Colômbia há um mês.

"O êxodo deixa claro que milhões de venezuelanos perderam a esperança de qualquer mudança", assegurou Hakim.

No entanto, Rodríguez garante que 20% dos residentes na Venezuela são colombianos, peruanos e equatorianos, cujos subsídios custam ao país mais de US$ 3 bilhões por ano. Sua permanência, argumenta, desmonta a "fake news" (notícia falsa) de que na Venezuela há uma crise humanitária. / AFP

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