Venezuela não pode esperar, diz oposição

A Venezuela não pode esperar o referendo revogatório previsto para agosto na Constituição Bolivariana para decidir se Hugo Chávez deve ou não ficar à frente da condução do país porque o estado de impaciência da sociedade venezuelana e a falta de governabilidade são tamanhas que exigem o encurtamento desse período.Essa posição foi transmitida ao presidente Chávez por Eduardo Fernández, líder do Copei (Comitê de Organização Política Eleitoral Independente, tradicional partido democrata-cristão eo maior do país) e por Teodoro Petkoff, conhecido ex-guerrilheiro e ministro na gestão do presidente Rafael Caldera, há exatamente uma semana, quando foi realizada a primeira e até agora única reunião entre a oposição e o governo desde que a crise política e institucional tomou conta do país e passou a fazer parte das manchetes dos jornais no exterior.Em entrevista exclusiva à Agência Estado, por telefone de Caracas, Fernández disse que o clima de confronto no país é tão evidente e a falta de governabilidade é tamanha que aantecipação do referendo ou a convocação de eleições se mostramnecessárias e urgentes para evitar problemas mais sérios naVenezuela. "O país não pode esperar mais. A situação é tãograve que a simples comunicação de um cronograma eleitoralresolveria de imediato a crise", disse o presidente do Copei.Pouco mais de seis meses são tão longos assim como para aoposição não poder esperar o referendo revogatório? Não, respondeu Fernández imediatamente. "Não, porque esta consulta popular deveria ter sido realizada no transcurso do ano passado, logo depois da crise de abril, porque o grau de conflito político e social que existe hoje acabou sendo provocado pelo próprio governo, cujo apoio popular se deteriorou em menos de um ano." GarantiasDe acordo com o líder do Copei, o governo do presidente Chávez não tem hoje condições nem de garantir a segurança na Praça Simón Bolívar, principal e mais importante referência geográfica de Caracas, onde se encontra a Assembléia Nacional (Congresso).O presidente Chávez respondeu a essas preocupações?, insistiu a reportagem. Fernández, que num primeiro momento explicou nãose sentir autorizado para responder por Chávez, declarou que opresidente afirmou ser totalmente contrário à antecipação doreferendo para o dia 2 de fevereiro, mesmo que lhe fossefavorável e, com isso, permanecesse no cargo. Então, acrescentouFernández na longa entrevista concedida por telefone "apresentei uma segunda proposta, que, tenho certeza, foi recebida com muito interesse pelo presidente".Nesse primeiro encontro entre a oposição e o governo, cercada de sigilos no Forte Tiuna, principal base militar de Caracas, sede do Comando Geral do Exército e residência do ministro de Defesa, Fernández propôs que Chávez aceitasse uma emenda à Constituição que permita reduzir de seis para quatro anos o mandato presidencial e a inclusão de um segundo turno daseleições. "Como no Brasil", disse o político."Além disso, sugeri que se incluísse um artigo para concluir imediatamente o mandato atual, permitindo a convocação de eleições, com garantias democráticas para todos, inclusive paraele." Para Fernández, esta emenda resolveria imediatamente acrise institucional e política no país. Depois da reunião noForte Tiuna, que se estendeu até bem depois da meia-noite,Chávez pediu que Fernández lhe enviasse, por escrito, essaproposta. "Agora, a bola está nas mãos do presidente. Será elequem deve decidir", disse o líder do Copei.RadicalismoA reunião entre o presidente Hugo Chávez e a oposição pode não ter resultado, pelo menos por enquanto, em nenhum fato prático e positivo para a Venezuela, mas mostrou a estratégia do presidente de dividir os grupos que querem tirá-lo do poder no grito. A greve, que privou o mundo de 80 milhões de barris de petróleo e seus derivados e tirou do país pelo menos US$ 4 bilhões em divisas, começa a se esvaziar depois de quase sete semanas em andamento.Os líderes mais radicas da paralisação, como Carlos Ortega, da Confederação dos Trabalhadores de Venezuela (CTV); CarlosFernández, da Petróleos de Venezuela (PDVSA); e Juan Fernández, da Fedecâmaras, começam a perder espaço, e não só nos meios de comunicação que apoiam abertamente a queda de Chávez. Na última semana, a chamada Coordenadora Democrática, liderada pelos três, praticamente perdeu força no papel que vinha desempenhando para derrubar o presidente.Fernández, o líder do Copei, e Teodoro Petkoff, um oposicionista moderado, se opuseram sempre à proposta de prolongar a greve. Os dois afirmavam que, se a paralisação se estendesse muito, a oposição e o governo se transformariam em "reféns políticos do radicalismo".Analistas políticos acreditam que, se o presidente convidou Fernández e Petkoff para uma reunião com essa intenção, está com plenos direitos para dividir a oposição, que, nas primeirassemanas da greve, conseguia levar às ruas de Caracas entre 150mil e 200 mil pessoas, chamando Chávez de "terrorista, ditadore ladrão". Com Fernández e Petkoff, o presidente busca garantias que Ortega e os outros dois Fernández não conseguem lhe oferecer."Não tenho muitas expectativas com relação aos resultados da reunião, sábado passado, com o presidente. Mas, certamente, foi muito significativa, já que faz renascer a cultura do diálogo que havia sido abandonada pelo próprio governo. Estamos indo nadireção correta, mas a situação ainda é de confronto e de violência generalizada." Sobre a criação do grupo Amigos para Venezuela, Fernández disse ser importante e positivo e agradeceu o apoio como venezuelano. Mas, acrescentou, "a solução para nosso problemas está nas mãos dos venezuelanos."

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