Bloomberg/Manaure Quintero
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Venezuela não recebe vacinas contra covid do sistema Covax por ter dados econômicos desatualizados

Dados de 2014 são os últimos do país, que fica de fora da categoria de baixa renda, como Bolívia e Honduras, que recebem doações de imunizantes

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2021 | 10h00
Atualizado 01 de julho de 2021 | 17h24

Desde dezembro de 2020, o Covax, iniciativa global para garantir acesso rápido e equitativo a vacinas contra a covid-19 a todos os países, anunciou acordos que permitiram a destinação de ao menos 1,3 bilhão de doses de imunizantes financiadas por doadores a 92 países de economias de baixa e média renda.

Olhando o mapa da distribuição dessas vacinas hoje, a Venezuela não está entre os beneficiados. O motivo? O governo de Nicolás Maduro não atualiza os dados econômicos desde 2014 e, considerando as cifras oficiais da época, o país entrou na categoria de renda autosuficiente para a compra de imunizantes.

A Venezuela poderia estar hoje com 20% da sua população vacinada, mas vive um drama com relação à propagação da covid e o atraso na vacinação. Com quase 30 milhões de habitantes, o país registra cerca de 270 mil casos de covid-19 e 3.101 mortes, de acordo com dados oficiais. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), 1,2 milhão de pessoas receberam a primeira dose da vacina na Venezuela e apenas 224 mil a segunda.

O país com PIB per capita de cerca de US$ 1.500, de acordo com organizações que monitoram a situação econômica local, não figura entre os países menos desenvolvidos, mas sim entre os capazes de comprar imunizantes porque em 2014, os dados mostravam uma renda per capita de US$ 13 mil. 

“Desde o governo Chávez, os dados eram modificados para esconder o aumento da pobreza, por exemplo. No governo Maduro, tudo piorou. Não apenas na Saúde, mas em todas as áreas, deixaram de divulgar dados. A intenção é não mostrar a decadência econômica e os precursores dessa grande crise humanitária que se vive hoje e, com isso, poder seguir negociando os níveis de endividamento”, explica María Alejandra Aristeguieta, analista de temas internacionais venezuelana e ex-embaixadora designada por Juán Guaidó para a Suíça. 

Outros países das Américas como Bolívia, El Salvador, Honduras e Nicarágua fazem parte da lista de economias de baixa ou média renda e já receberam, juntos, mais de 2,8 milhões de doses de diferentes imunizantes, segundo dados do Covax até a quarta-feira 30 de junho.

Dos 190 países participantes do sistema Covax, 92 entram na classificação de economias de baixa e média renda elegíveis para o Compromisso Antecipado de Mercado (AMC), ou seja, recebem os imunizantes por meio de financiamento. Os outros 98 países, considerados de economias de alta renda, precisam comprar as vacinas do sistema.

Essa divisão é feita com base em dados da renda bruta per capita dos países disponibilizados pelo Banco Mundial para o ano de 2019. Lá, os últimos dados da Venezuela são os de 2014. 

Mas nos últimos sete anos, o PIB do país diminuiu, a produção de petróleo está nos níveis mais baixos e a população enfrenta um grave crise econômica, com escassez de alimentos e remédios. 

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Outro caminho 

A compra de vacinas do sistema Covax seria então o outro caminho natural da Venezuela para imunizar a população. O governo Maduro assinou um acordo para a compra de 11,3 milhões de doses e teria que pagar US$ 119,9 milhões, sendo que 15% desse valor deveria ser pago de forma antecipada para garantir as vacinas "reservadas". Mas o país não pagou o necessário a tempo.

“Seja russa, chinesa ou cubana, acho que as pessoas devem ser vacinadas”, diz à agência France-Press Andrés Febres, comerciante de 25 anos que espera em silêncio as reações adversas à inoculação com a vacina cubana Abdala, sentado em uma arquibancada ao lado de trinta outras pessoas. A Venezuela começou a vacinar sua população com a vacina desenvolvida em Cuba, apesar de ainda não haver aprovação da OMS. O laboratório cubano que a desenvolveu fala em uma eficácia de 92%, mas médicos venezuelanos estão céticos em relação ao produto. 

Depois de algumas negociações, Caracas decidiu, em abril deste ano, que escolheria a vacina que queria e pagaria a integridade do valor necessário para receber o imunizante. Um documento do Covax mostra que a Aliança Global para as Vacinas (Gavi) recebeu US$ 109,9 milhões da Venezuela em 12 transações, mas quatro pagamentos haviam sido bloqueados.

Dessa forma, o país não recebeu ainda as 5 milhões de doses do imunizante Janssen (Johnson & Johnson), primeira vacina de dose única aprovada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O governo Maduro afirma que as sanções impostas pelos Estados Unidos impediu a liberação do dinheiro. No entanto, o governo de Joe Biden emitiu uma licença no dia 16 de junho para excluir as questões relacionadas ao combate à covid das sanções.

"É importante entender que a emergência humanitária pela qual passa a Venezuela não se deve às sanções dos EUA. No atual contexto, isso é ainda menos viável porque as licenças (dos EUA) permitem muitas ações comerciais, por exemplo", explica a responsável pela área de investigação do Cepaz Nicole Hernandez.

Até 14 de junho, a Venezuela recebeu 3.230.000 de vacinas após acordos com Rússia e China. O governo diz que quer imunizar 22 milhões de pessoas ainda neste ano. 

Pessoas com mais de 60 anos recebem o imunizante russo Sputnik-V, mas não foi possível para Víctor Ilarraza, 78 anos, como contou à AFP. “Me chamaram para tomar a vacina russa, mas fui várias vezes: não tinha vacina ou senha, tem que chegar às 3 da manhã (para entrar na fila).”

“A Venezuela está em último lugar na fila (do Covax) e isso afeta a população venezuelana porque eles (integrantes do governo) já estão todos vacinados”, diz María Alejandra. / Com informações da AFP

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