Venezuela planeja reajustar valor da gasolina

Maduro deve anunciar nas próximas semanas a desvalorização do câmbio e aumento do preço do combustível

Roberto Lameirinhas, enviado especial a Caracas,

10 de dezembro de 2013 | 23h12

CARACAS - O governo venezuelano pretende adotar nas próximas semanas, provavelmente antes do fim do ano, duas medidas impopulares na nova fase do que considera uma "guerra econômica". A primeira, tida como inevitável, deve ser a desvalorização do bolívar, a moeda local, cujo valor no mercado negro chega a ser dez vezes superior ao de sua cotação oficial, de 6,30 por US$ 1. A segunda, de altíssimo risco para os chavistas, será o aumento do preço da gasolina.

O vice-presidente venezuelano, Jorge Arreaza, afirmou na noite de segunda-feira que não há mais como o governo subsidiar o preço dos combustíveis nos níveis atuais - um litro de gasolina na Venezuela é vendido pelo equivalente a US$ 0,04. "O governo abrirá consultas com todos os setores, incluindo o de empresários, para discutir as ações e políticas para equilibrar definitivamente a economia da Venezuela", declarou Arreaza, genro do líder bolivariano, Hugo Chávez, morto em 5 de março. "Temos de sustentar vários debates, por exemplo, sobre o tema fiscal e sobre começar a cobrar pela gasolina."

"Uma das principais regras não escritas da política venezuelana é a que diz que aumento da gasolina sempre justificará qualquer tipo de violência ou golpe de Estado", brinca o professor da Universidade de Caracas Carlos Machado. "Mas o discurso do vice-presidente evidencia que o governo vai aproveitar o intervalo de dois anos sem eleições e o capital político renovado na votação de domingo (quando os chavistas conquistaram 75% das prefeituras do país e nacionalmente tiveram 9 pontos porcentuais de votos a mais do que a oposição) para adotar ações impopulares, mas essenciais para estabilizar a economia do país."

"Se somos um dos maiores produtores de petróleo do mundo, por que nosso povo não pode se beneficiar disso. Sim, nossa gasolina é muito barata, mas ela tem sido presenteada também a países como Cuba e Nicarágua", desabafou, em causa própria Rubens Costa, taxista de Caracas. "Um aumento pode revoltar a população como foi a revolta do Caracaço (de 1989)."

Segundo estudos do governo, a elevação do preço pode reduzir a dívida da estatal petrolífera Petróleos de Venezuela (PDVSA), que chegou a US$ 2 bilhões no primeiro semestre de 2013. A PDVSA é responsável pelo financiamento dos projetos sociais do governo.

Para o economista José Toro Hardy, porém, o governo seguirá adotando a retórica de lançar sobre os setores produtivos a culpa pela situação econômica atual, na qual a inflação passa de 50% nos últimos 12 meses. "Diante de eleições nas quais o prestígio de Maduro estava em jogo, o governo optou pela ‘guerra econômica’ traçada em Cuba: culpar empresários, declará-los inimigos da pátria e forçá-los a liquidar seus estoques, não importando se isso os arruinará", analisou Toro Hardy em um artigo publicado ontem no jornal de Caracas El Universal.

"Vantagens políticas, como sempre ocorre com o populismo, são imediatas, mas as consequências nos próximos meses serão devastadoras. A partir de janeiro, a escassez e o desemprego serão angustiantes e muitas empresas fecharão suas portas, incapazes de repor inventários. Já não há dólares e poucos empresários se atrevem a investir", completou.

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