Reprodução de TV/ Reuters
Reprodução de TV/ Reuters

Chavismo prende 6 e os acusa de tentar matar Maduro com explosivo em drone

Governo venezuelano assegura que presidente chavista foi alvo de tentativa de atentado enquanto discursava em parada militar sábado, quando detonação feriu 7 soldados; oposição teme que incidente seja usado como desculpa para aumento de repressão

O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2018 | 15h25
Atualizado 06 Agosto 2018 | 13h04

CARACAS - O governo da Venezuela iniciou neste domingo, 5, com a prisão de seis pessoas, a reação ao que considerou um atentado contra um comício do presidente Nicolás Maduro na tarde do sábado. Em meio a versões distintas sobre o que teria causado a interrupção de sua fala, o líder chavista responsabilizou os Estados Unidos e a Colômbia pelo episódio. 

Após um grupo aparentemente composto por dissidentes militares ter reivindicado a autoria da ação, a oposição venezuelana teme que o governo use o episódio para aumentar a repressão contra seus críticos. 

Segundo autoridades chavistas, todos os autores materiais e intelectuais do ataque foram identificados. “Prendemos terroristas e capangas”, disse o ministro do Interior Nestor Reverol. “Além disso, foram apreendidos veículos e organizadas operações de busca e apreensões por todo país que recolheram provas importantíssimas.”

 

Ainda de acordo com Reverol, um dos seis suspeitos detidos tinha um mandado de prisão pendente por um ataque em 2017 sobre uma base militar, e um segundo já tinha sido preso em 2014 por participar em protestos contra o governo.

O procurador-geral, Tarek William Saab, ligado ao governo, informou que revelará na segunda-feira, 6, as identidades dos detidos. “Haverá uma sanção implacável”, alertou.

Segundo o governo venezuelano, drones carregados com explosivos atingiram um comício comandado pelo líder chavista em Caracas. Um vídeo divulgado nas redes sociais mostra o momento em que uma explosão é ouvida e os seguranças de Maduro, que fazia um discurso, correm para protegê-lo com um escudo à prova de balas.

Ao contrário do presidente, que permaneceu de pé, observando impassível o que acontecia, vários militares a seu lado se abaixaram e, pouco depois, Maduro foi retirado do local. Sua mulher, Cilia Flores, e vários nomes importantes do governo também estavam no palanque.

O grupo intitulado Soldados de Franelas, composto aparentemente por dissidentes militares, reivindicou o ataque. “Nosso objetivo era mandar dois drones com C4 no palco presidencial, mas eles foram abatidos por atiradores de elite”, disse o grupo no Twitter. “Demonstramos que são vulneráveis. É questão de tempo.” 

Houve registro de incêndio em um edifício próximo do local do discurso. Um policial que pediu anonimato afirmou que deste imóvel saíram os drones e um deles explodiu. Outras versões, no entanto, indicam que ali houve apenas uma explosão acidental de um botijão de gás.

Repressão 

Opositores dizem que o governo já utilizou incidentes como esse como pretexto para endurecer medidas contra opositores, incluindo a prisão de alguns dos mais conhecidos líderes do país. A advertência de Maduro gerou temores de uma nova ofensiva contra os opositores. Estima-se que o chavismo ainda mantenha 248 presos políticos, entre eles o dirigente Leopoldo López, em prisão domiciliar.

 

“Alertamos que aquilo até agora anunciado pelo governo abre a porta para uma perseguição e onda de repressão que pode justificar qualquer coisa”, afirmou Nicmer Evans, dissidente do chavismo e líder da opositora Frente Ampla.

“Não queremos atentados nem auto-atentados, não queremos golpes nem autogolpes. Tampouco queremos mais hiperinflação, mais fome ou mortes por falta de remédios”, afirmou Jesús Torrealba, ex-secretário da coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), atualmente dividida.

Em discurso na noite de sábado, Maduro afirmou que não haverá perdão para os responsáveis pelo ataque. “Os perseguiremos e os capturaremos onde quer que estejam escondidos. Eu prometo!”

Diante de uma enorme rejeição popular em consequência do colapso econômico, Maduro atribuiu o ataque à “ultradireita”, como se refere à oposição, e ao presidente colombiano. “Não tenho dúvidas de que o nome de Juan Manuel Santos está por trás deste atentado”, afirmou Maduro. A chancelaria colombiana afirmou que a acusação de Maduro carece de credibilidade. 

O líder venezuelano afirmou que os financiadores da ação vivem na Flórida e pediu ao presidente Donald Trump que “lute contra esses grupos terroristas.” Nos EUA, o assessor de segurança nacional do presidente Donald Trump, John Bolton, negou qualquer envolvimento de Washington com o episódio. “Posso afirmar categoricamente que não houve absolutamente nenhuma participação do governo americano no que aconteceu”, afirmou Bolton ao canal Fox. 

Os governos de Cuba, Bolívia, Síria, Irã, Turquia e Rússia – aliados do governo socialista – condenaram o incidente. A Espanha criticou “qualquer violência com fins políticos” e a Alemanha afirmou que “acompanha de perto a evolução do caso”. / AP, AFP, EFE e REUTERS

 

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