Venezuela recusa mediação externa para crise política

Em Genebra, chanceler Elías Jaua rejeita entrada de observadores da ONU e diz que país é capaz de resolver seus problemas sozinhos

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2014 | 02h06

A Venezuela rejeita qualquer envolvimento de mediadores ou instituições estrangeiras para encontrar uma solução para a crise política e para evitar a violência que tomou conta das ruas nas últimas semanas. Caracas também se recusa a aceitar a entrada no país de relatores da ONU para avaliar eventuais violações dos direitos humanos.

"A Venezuela não precisa de mediação internacional", declarou ontem o chanceler venezuelano, Elías Jaua, a um grupo de jornalistas na ONU. "Os problemas que temos, podemos resolver entre nós, venezuelanos."

Nos últimos dias, a oposição venezuelana vem apelando para que a OEA e a ONU tomem uma posição mais ativa em relação ao país. "Podemos solucionar nossos problemas e recuperar o espaço do discurso democrático", disse o chanceler. Para ele, isso será feito em uma conferencia convocada por Maduro.

Jaua ainda rejeitou a entrada de enviados da ONU que haviam solicitado permissão ao país para examinar a situação da liberdade de imprensa, liberdade de expressão e o direito de manifestação. "Não precisamos da intervenção de organismos da ONU."

O chanceler se reuniu ontem com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que havia alertado que as "autoridades venezuelanas deveriam escutar as ruas" e indicado que os "desejos legítimos" da população precisam ser atendidos.

"Uma coisa são as demandas legítimas de uma sociedade democrática, mas isso não pode ser confundido com a ação de grupos treinados para promover uma violência planificada", respondeu o chanceler.

Jaua garante que tem o "apoio total" do Mercosul. "O bloco rejeitou qualquer forma de violência e a tentativa de derrubar um governo legitimo", disse. Nesta semana, em Genebra, o chanceler argentino, Héctor Marcos Timerman, saiu em apoio à Venezuela e alertou sobre os riscos de que governos eleitos democraticamente na América Latina sejam alvo das ruas.

"Na América Latina, deixamos para trás o clássico governo civil-militar, mas nossas incipientes democracias ainda são objeto de pressões que colocam em risco a permanência de governos eleitos pelas maiorias", afirmou.

Para ele, o governo de Maduro usou a força pública "de forma legitima e adequada". Sobre as 18 mortes registradas até aqui, Timerman disse que 15 foram "produto do contexto causado por grupos violentos". "Somos vítimas de um conflito de natureza política e ideológica", disse o chanceler argentino. "Como esses grupos não podem derrotar o governo em eleições, recorrem à violência."

Questionado sobre o anúncio do líder opositor Henrique Capriles de "ir à ONU explicar o que realmente ocorre na Venezuela", Jaua respondeu que "todos sabem que nos fóruns internacionais quem discursam são os representantes dos Estados-membros".

As declarações de Jaua ocorrem logo após a imprensa brasileira ter informado que o assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, viajou para Caracas para participar oficialmente dos atos em homenagem ao ex-presidente Hugo Chávez, que morreu há um ano, mas também para aproveitar para se reunir com altos funcionários do governo venezuelano para conversar sobre a crise.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.