'Venezuela reforça imagem populista do Mercosul'

Para especialista, entrada de Caracas no bloco terá implicações políticas em razão de radicalismo do presidente Chávez

Entrevista com

ARIEL PALACIOS , ENVIADO ESPECIAL / , MENDOZA, ARGENTINA , O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2012 | 03h07

O analista político Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos Nueva Mayoría, afirma que "a imagem do Mercosul pagará um certo preço com a entrada da Venezuela no bloco". Em entrevista por telefone ao Estado, sustentou que o ingresso da Venezuela dará um tom mais populista à organização.

O que muda no Mercosul com a entrada da Venezuela?

Concretamente, não muda muito desde o ponto de vista econômico e comercial para o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, já que todos tinham acordos bilaterais com o novo membro, embora o intercâmbio comercial com a Venezuela não seja muito importante para a maioria dos setores econômicos. Mas, politicamente a entrada da Venezuela leva o Mercosul a um tom mais populista. Até a destituição de Fernando Lugo o bloco era um grupo regional com alta coesão política. Os quatro governos, com seus nuances, tinham uma posição de centro-esquerda moderada. Isso mudou agora com a chegada da Venezuela bolivariana.

E o que muda na área externa?

A imagem do Mercosul pagará um certo preço pelo fato de incorporar um país que possui posições radicais em vários pontos da agenda internacional.

Qual era o motivo para que Chávez pressionasse durante oito anos para entrar no Mercosul?

Chávez queria a entrada da Venezuela no Mercosul mais por razões políticas do que econômicas, para aparecer como integrante de um grupo regional, que tem uma imagem política mais moderada. E dessa forma, dar um sinal de menor isolamento. Mas, além disso, a Venezuela importa alimentos. E, desde esta perspectiva, existe uma complementaridade. É possível que a dependência que a Venezuela tem atualmente da Colômbia na área de alimentos agora se reduza graças ao fornecimento desses produtos que poderá comprar do Mercosul.

A entrada da Venezuela no bloco torna-se mais palatável em caso de uma eventual saída de Hugo Chávez do poder?

Um desaparecimento de Chávez do cenário político no futuro não afetaria a permanência da Venezuela. O Mercosul, nos anos 90, tinha quatro governos no centro ou centro-direita. Mas, na primeira década deste século os quatro países deram uma guinada para a centro-esquerda, sem que isso tivesse alterado o Mercosul.

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