REUTERS/Carlos Garcia Rawlins (VENEZUELA
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins (VENEZUELA

Venezuela retira suas reservas no FMI e produz menos petróleo

Agora, Caracas tem no Fundo apenas bolívares que não valem nada e a quantidade de barris/dia é igual à produção em 1949

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

04 Junho 2018 | 05h00

A Venezuela sacou em abril US$ 475 milhões de sua reserva no Fundo Monetário Internacional (FMI). No início do ano, o país já havia retirado os últimos US$ 250 milhões de seus Direitos Especiais de Saque (SDR), conta na qual tinha US$ 3,6 bilhões em 2015. Caracas ainda possui US$ 362 milhões em sua reserva na instituição. O restante de sua cota é integrado por bolívares que não têm nenhum valor.

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O quase esgotamento dos recursos que o país poderia retirar do Fundo é um dos vários sinais que indicam um futuro de aperto financeiro cada vez maior. A Venezuela que Nicolás Maduro continuará a governar já enfrenta queda na produção de petróleo, cerco de credores externos e sanções crescentes dos EUA.

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“A Venezuela emprestou bilhões do FMI e está deixando a organização com um monte de bolívares do jogo Banco Imobiliário, que não valem nada”, disse Russ Dallen, da consultoria Caracas Capital. Todos os saques realizados eram permitidos pelas regras da instituição. Os US$ 362 milhões restantes integram as reservas internacionais da Venezuela, cujo valor total está em menos de US$ 10 bilhões. No Brasil, elas são de US$ 382 bilhões. 

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A produção de petróleo na Venezuela chegou em abril a 1,436 milhão de barris/dia, mesmo patamar registrado em 1949. Mas desse total, apenas 152 mil barris/dia são exportados em troca de divisas, estima Dallen. O restante é usado para consumo doméstico, a preço irrisório, ou destinado ao pagamento de dívidas com China e Rússia e a programas de cooperação com Cuba e Nicarágua.

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Quando Hugo Chávez foi eleito, em 1998, a Venezuela produzia 3,5 milhões de barris de petróleo ao dia. Agora, o país com as maiores reservas de petróleo do mundo importa o produto, o que reduz o impacto positivo para o país da crescente alta no preço da commodity.

A situação é agravada pelo calote da Venezuela e por decisões judiciais que deram à ConocoPhillips o poder de arrestar carregamentos de petróleo em águas internacionais. Depois do sucesso da companhia americana em capturar cargas no início de maio, Caracas determinou a volta ao país de todas as embarcações que tivessem petróleo venezuelano. “Eles se impuseram um autobloqueio”, observou Dallen.

A situação é tão grave que alguns analistas preveem que o novo mandato de Maduro poderá ter vida curta. Risa Grais-Targow, da Eurasia, estima que há uma probabilidade de no mínimo 60% de que o presidente reeleito não sobreviva além do fim de 2019. 

Na avaliação de Dallen, a capacidade de sobrevivência do regime dependerá em grande medida da disposição da Rússia de financiar Caracas. Depois de emprestar US$ 65 bilhões à Venezuela nos últimos anos, a China estaria mais relutante em entregar recursos adicionais a Maduro, afirmou.

“Eles estão desesperados e estão buscando dinheiro até embaixo do colchão”, afirmou Dallen. Segundo ele, a maior parte da produção de petróleo do país não gera receita ou divisas. Do 1,436 milhão de barris/dia de abril, 491 mil foram destinados ao consumo doméstico, a preços irrisórios. A US$ 0,01(R$ 0,037) o litro, a Venezuela tem o combustível mais barato do mundo.

Outros 505 mil barris foram entregues à China, como pagamento de empréstimos feitos nos últimos anos em troca de petróleo futuro. O crédito, ressalta Dallen, já foi gasto há muito tempo. A Rússia ficou com 165 mil barris/dia, também como ressarcimento de financiamentos. Outros 123 mil barris/dia foram destinados a Cuba e Nicarágua, dentro de programas de cooperação com os países. Sobraram 152 mil barris/dia.

Na semana passada, os EUA impuseram sanções que proíbem americanos de comprarem ativos estatais ou créditos a receber da Venezuela, o que restringe ainda mais as possibilidades de Caracas de fazer caixa. Na prática, a medida tem um impacto muito além dos Estados Unidos, já que atinge qualquer transação que passe pelo sistema financeiro do país.

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