Venezuela se despede de Chávez sob temores de instabilidade política

Um modesto caixão envolto na bandeira venezuelana guiou ontem uma multidão vestida de vermelho por Caracas, enquanto o corpo do presidente Hugo Chávez, morto na terça-feira, era levado do hospital à academia militar onde permanecerá até o enterro, amanhã. Longe do féretro, venezuelanos correram a bancos, mercados e postos de gasolina, temendo que uma eventual instabilidade política leve ao desabastecimento.

ROBERTO LAMEIRINHAS , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2013 | 02h09

Em um clima carregado de emoção, dezenas de milhares de chavistas e militares em lágrimas lutavam para se aproximar do caixão do presidente que governou por 14 anos e prometeu criar na América Latina o socialismo do século 21. Outros erguiam os braços com os punhos cerrados aos gritos de "A luta continua! Chávez vive!" e "Chávez ao Panteão, junto com Simón", em alusão ao herói libertador Simón Bolívar.

Em agências bancárias do centro de Caracas e postos de gasolina as filas eram longas e vários mercados e lojas da capital tiveram de fechar as portas antes da hora. Muitos venezuelanos temem a falta de suprimentos caso haja problemas no processo de sucessão política, até as eleições.

Antes de o corpo de Chávez deixar o hospital, um padre conduziu uma oração por seu "eterno descanso" e a octogenária mãe do presidente, Elena Frías de Chávez, com um lenço na cabeça, debruçou-se sobre o caixão do filho.

O sucessor político do líder bolivariano e presidente interino da Venezuela, Nicolás Maduro, caminhava à frente da multidão, acompanhado por vários integrantes do primeiro escalão do governo e sob a proteção de batedores da polícia.

O ministro da Defesa, Diego Molero, reiterou ontem seu apoio a Maduro. Em comentários à rede estatal, ele disse que o candidato presidencial deve ser Maduro, como Chávez desejou. "Nossa missão é levar Nicolás Maduro à presidência da República Bolivariana da Venezuela", declarou. Desde a morte do líder, a cúpula política e militar do chavismo buscou mostrar publicamente que segue unida e dará apoio incondicional a Maduro. Molero, que havia garantido lealdade ao presidente interino momentos após o anúncio da morte de Chávez, chegou a afirmar, de madrugada no Twitter, que as Forças Armadas dariam apoio a Maduro na disputa contra Henrique Capriles, o líder da coalizão opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD).

À passagem de autoridades pelas ruas, chavistas davam gritos de apoio ao governo. Desde o amanhecer, canhões do Exército disparavam a cada hora.

O percurso do féretro, do hospital à academia militar, levou mais de seis horas, percorrendo 8 quilômetros que abrangeram os pontos da capital onde Chávez comandou comícios históricos, como no Forte Tiuna e em Los Próceres. "Te amarei para sempre, meu pai", dizia um cartaz no destino final. Ainda não foi anunciado onde será enterrado o presidente. Vários chefes de Estado, incluindo o boliviano Evo Morales - que caminhou com Maduro à frente do caixão -, a argentina Cristina Kirchner e o uruguaio José Mujica, já estão na Venezuela.

A presidente Dilma Rousseff e vários outros líderes internacionais, como o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, devem chegar a Caracas hoje (mais informações na pág. 12).

O líder bolivariano morreu aos 58 anos após quatro cirurgias em Havana e várias sessões de químio e de radioterapia, em um tratamento contra o câncer na região pélvica que durou 18 meses. A morte de um presidente em exercício é algo inédito na história recente da Venezuela. O último caso do tipo ocorreu em 1935, com o ditador Juan Vicente Gómez.

A Constituição determina a realização de eleições presidenciais em até 30 dias, nas quais Maduro deverá ser o representante do campo chavista . Na madrugada de terça para quarta-feira, o presidente interino elogiou a "boa vontade da oposição venezuelana" diante da morte de Chávez.

"Acolhemos suas expressões respeitosas de condolência e as respondemos com boa vontade", disse Maduro, na rede Telesul, sobre o comunicado da MUD, lido por Capriles, lamentando a perda do presidente. "Espero que essas expressões se mantenham para que nossa Venezuela possa transitar por esses dias tão difíceis."

Pouco antes de anunciar a morte de Chávez, o presidente interino da Venezuela afirmou haver indícios de que o líder bolivariano fora "contaminado" com câncer. No mesmo pronunciamento, Maduro informou a expulsão de um adido militar dos EUA que estaria "conspirando contra a estabilidade" da Venezuela. Em seguida, o chanceler de Caracas, Elías Jaua, afirmou que um outro funcionário americano também seria expulso.

Nas ruas próximas à academia nacional, grupos de partidário do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), se comprometia a "resguardar as conquistas da revolução bolivariana".

Entre as principais críticas dirigidas a Chávez nos 14 anos em que esteve no poder dizia respeito a sua retórica que aprofundava as divisões da sociedade boliviana. O discurso radical, no entanto, deu ao líder bolivariano a popularidade necessária para vencer quase todas as disputas eleitorais nas quais se envolveu. / COM AP e EFE

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