Venezuela se ressente de verdadeiros líderes

Atual comando da MUD, considerado ilegítimo e até irrelevante, deixa coalizão desorientada diante do atual rumo político do país

JUAN, NAGEL, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2014 | 02h05

Os venezuelanos ocupam as ruas do país desde o início de fevereiro para protestar contra a incapacidade do governo de solucionar os problemas da criminalidade e da inflação em níveis críticos. As manifestações já provocaram a morte de dezenas de pessoas e centenas de prisões. Há um aspecto curioso em relação a esse movimento: ele não foi orquestrado pela oposição política ao presidente Nicolás Maduro. As pessoas estão nas ruas apesar de seus líderes. Muitas delas até desistiram de apoiar a oposição tradicional.

Desde o início de abril, a oposição venezuelana está envolvida em um frágil diálogo com o governo por solicitação de alguns ministros das Relações Exteriores sul-americanos ansiosos por ver o fim da crise. Depois de um começo auspicioso em que as partes expressaram honestamente suas queixas ao vivo na TV, a Mesa da Unidade Democrática (MUD), principal coalizão opositora, anunciou que abandonará o diálogo, a não ser que o governo acabe com a repressão.

A causa mais recente da indignação ocorreu quando as forças de segurança invadiram acampamentos montados pelos estudantes na frente de vários edifícios de Caracas como uma forma de protesto pacífico. Centenas de jovens foram detidos e levados para instalações militares. Defendendo os estudantes e outras vítimas da perseguição política, a coalizão tenta desviar a atenção de sua reputação manchada.

O Senado americano já fez audiências sobre a possível adoção de sanções contra as autoridades chavistas implicadas em violações dos direitos humanos. Isso ocorreu depois que um relatório comprometedor sobre abusos "sistemáticos" das forças de segurança venezuelanas foi divulgado pela organização Human Rights Watch.

Quando a oposição concordou com as negociações com o governo, muitos enfatizaram o fato de os estudantes não estarem presentes. Alguns líderes mais veementes da oposição, como a ex-deputada María Corina Machado, que foi expulsa do Parlamento, ou Leopoldo López, que está preso, também pediram um boicote às conversas. E o distanciamento deles da MUD aumentou nos últimos meses.

O candidato da oposição que perdeu as eleições presidenciais no ano passado, Henrique Capriles, está afastado do debate, limitando-se a exercer seu cargo de governador do Estado de Miranda. Com López na prisão e María Corina fora do Parlamento, a oposição tem uma liderança da MUD que, não tendo sido eleita, é considerada ilegítima por muitos e irrelevante. Maduro ainda não articulou seus planos para o país e a economia em frangalhos deixa poucas opções para formular o seu programa. Ou seja, não é apenas o processo de diálogo que se encontra em um impasse. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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