Venezuela terá a eleição mais observada da história do país

Temendo eventuais atos de violência relacionados à acirrada eleição deste domingo, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ordenou o isolamento do palácio presidencial de Miraflores. As ruas que circundam o edifício oficial, no centro de Caracas, foram bloqueadas com barricadas e rolos de arame farpado, e serão guardadas por dezenas de soldados e unidades antimotim.Em respeito à legislação eleitoral, expressões de respaldo tanto à Chávez, quanto ao opositor Manuel Rosales, estão proibidas desde a sexta-feira. Ainda assim, os comandos eleitorais de ambos os candidatos temem que acontecimentos violentos marquem a votação deste domingoO reforço, que incluiu a utilização de vários metros de arame farpado na rua em frente ao Miraflores, aconteceu logo depois de uma reunião entre o presidente e os chefes das missões de observadores da Organização dos Estados Americanos e da União Européia. Até o momento, nenhum grande incidente violento ou distúrbio foi registrado. Pela lei venezuelana, as Forças Armadas serão responsáveis pela segurança do país durante a jornada eleitoral de domingo. Cerca de 129 mil homens estão em prontidão em todo o país. O clima de tensão antecede a eleição mais observada da história venezuelana. No pleito, estará em jogo o futuro político de um dos líderes mais polêmicos da América Latina. Chávez concorrerá à reeleição neste domingo com seu poder ampliado pelos altos preços do petróleo no mercado internacional e depois de um ano em que consolidou sua postura como líder anti-EUA na região e no mundo. Em 2006, o presidente venezuelano foi ao Irã para reunir-se com o presidente Mahmoud Ahmadinejad, acusado pelos Estados Unidos de ter planos de fabricar uma bomba nuclear; estabeleceu acordos de cooperação militar com a Rússia e chamou o presidente George W. Bush de "diabo" durante a Assembléia Geral da ONU. Caso vença - o que é muito provável, segundo as últimas pesquisas de intenção de voto - o presidente já prometeu convocar um referendo para permitir reeleição infinita no país e sinalizou que poderia revogar as concessões das emissoras de televisão privadas que fizerem campanha contra seu governo.Homenagem a FidelNeste sábado, Chávez disse que irá dedicar a "grande vitória popular" que ele espera obter ao ditador cubano Fidel Castro, de quem é amigo pessoal. Além disso, em uma entrevista à rede de TV a cabo americana CNN em Espanhol, o presidente prometeu ampliar o poder do povo na "próxima fase" de seu governo, que, caso ele vença, começará em 2007 e se estenderá até 2012. Durante a mesma rodada de perguntas, ele afirmou que "radicalizará" seu governo, mas explicou que a proposta nada tem a ver com extremismos. "Vamos aprofundar a revolução e radicalizá-la", disse, ressalvando que a palavra quer dizer "ir às raízes, assentar uma Venezuela nova, na democracia". Perguntado sobre seu papel no processo de mudanças venezuelano, o presidente disse que este seguirá seu caminho mesmo sem ele, porque a "revolução não pode depender de um homem. Eu sou só mais um nesta batalha".Renovação legislativaDo outro lado do espectro político, o principal candidato da oposição, Manuel Rosales, disse neste sábado que o ganhador das eleições de domingo deverá convocar novas eleições legislativas. Segundo ele, a composição atual da Assembléia Nacional "não reflete a correção de forças políticas na Venezuela".A oposição venezuelana boicotou as últimas eleições legislativas do país como forma de protesto contra o governo.Além disso, Rosales advertiu que suspenderá totalmente os convênios assinados por Chávez com o Irã - "um governo terrorista" - e parcialmente os tratados com a Rússia e a China. "Deve-se levar em conta também fatores como a liberdade e os direitos humanos." Sobre o Mercosul, disse: "Estamos revisando alguns normas que há ali (no acordo firmado por Chávez com o bloco sul-americano este ano). Proporíamos algumas mudanças." "Há coisas que gostaríamos que mudassem, e isso determinará nossa participação ou não. Em termos gerais, seria bom estar no Mercosul."Os partidários de Rosales apontaram a possibilidade de uma fraude. Eles temem que a Comissão Nacional Eleitoral - o órgão responsável pela contagem dos votos - "impossibilite a aspiração da maioria da população venezuelana por uma mudança em direção à democracia".Diante deste cenário, os oposicionistas não descartam a mobilização popular e massiva para "resistir a atropelos chavistas" e exercer os direitos constitucionais. Esse processo se daria através de ações unificadas e coordenadas, que incluiriam desde a presença nas ruas até a interrupção do trânsito nas principais vias das cidades e "panelaços".

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