Venezuela troca títulos da dívida por comida

Caracas faz acordo com Uruguai, Colômbia e Argentina para conter desabastecimento

CARACAS, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2013 | 02h06

O governo da Venezuela recorrerá a um plano especial de importação de alimentos de países sul-americanos para contornar a crise de desabastecimento no país. O presidente Nicolás Maduro fechou acordos com Argentina, Uruguai e Colômbia, nos quais a comida será trocada por papéis da dívida da PDVSA, a estatal do petróleo.

O anúncio foi feito na noite de segunda-feira pelo vice-presidente para a área econômica, Rafael Ramírez. Da Argentina, está prevista a importação de 450 mil toneladas de comida. Os acordos com Colômbia e Uruguai já vinham sendo dados como certos. Os colombianos receberão US$ 600 milhões em bônus da PDVSA e o Uruguai, US$ 400 milhões.

"O país tem muitos títulos. É um arranjo com os colombianos, que é conveniente para nós", disse Ramírez. Além dos acordos, o governo chavista criou um fundo de US$ 700 milhões, também com base em recursos da PDVSA, que alimenta com recursos da exportação de petróleo o Fundo Nacional para Desenvolvimento Interno (Fonden). "Criamos um fundo rotatório no Fonden de US$ 700 milhões para continuar atendendo os requisitos de alimentação", disse Ramírez.

A falta de itens da cesta básica, como leite em pó, manteiga, óleo de cozinha e farinha de milho, já é considerada grave em algumas regiões, especialmente em Caracas. Sem uma indústria forte de produção de comida, o país compra do exterior a maioria dos produtos de primeira necessidade.

Em razão do aumento dos gastos públicos no ano passado e de uma queda na receita da PDVSA - provocada pelo comprometimento da produção com subsídios internos e acordos com países do Caribe, com a China e com Cuba -, a reserva de moeda estrangeira caiu. Como o câmbio na Venezuela é fixo, isso provocou uma distorção entre o preço oficial e o do mercado paralelo. Além disso, a distribuição de dólares para empresas importadoras tornou-se intermitente.

Governo e oposição atribuem causas diferentes para a escassez de dólares. As empresas dizem que não têm acesso à moeda em razão da baixa nas reservas e da burocracia. Os chavistas acusam os empresários de simplesmente revender os dólares no mercado negro para lucrar com a diferença de câmbio, sete vezes maior que o oficial.

Segundo o Banco Central da Venezuela, o índice de desabastecimento atingiu 21,5% em agosto. Em Caracas, a situação é mais grave. A cada 100 estabelecimentos comerciais, 85 não têm leite em pó e açúcar. Também falta óleo de cozinha em 84% dos mercados da capital. Outra consequência da escassez é a alta dos preços. No último ano, os alimentos ficaram 70% mais caros.

Apesar das denúncias de uma "guerra econômica" promovida pela oposição, o governo reconhece que há um desequilíbrio entre oferta e demanda de alimentos. "Nosso povo consome mais e o setor produtivo não acompanhou isso", disse Ramírez. / EFE e AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.