Reuters
Reuters

Venezuela: um chamado à paz

Em artigo para jornal americano, líder venezuelano acusa oposição de manipular manifestações que têm se tornado mais violentas

Nicolás Maduro* / The New York Times, O Estado de S. Paulo

02 de abril de 2014 | 23h48

Os recentes protestos ocorridos na Venezuela tomaram conta das manchetes internacionais. Grande parte da cobertura da mídia estrangeira distorceu a realidade do meu país e os fatos.

Os venezuelanos estão orgulhosos da nossa democracia. Construímos um movimento democrático de participação desde as bases, garantindo que poder e recursos sejam equitativamente distribuídos entre o povo.

Segundo a ONU, a Venezuela tem diminuído a desigualdade de maneira significativa. Agora, ela apresenta a menor desigualdade de renda da região. Reduzimos enormemente a pobreza - de 49% em 1998, para 25,4% em 2012, segundo dados do Banco Mundial; no mesmo período, segundo estatísticas oficiais, a pobreza extrema caiu de 21% para 6%.

Criamos programas gratuitos de assistência médica universal e educação em todo o país que são o nosso orgulho. Conseguimos tudo isso utilizando as receitas do petróleo venezuelano.

Embora nossa política social tenha melhorado a vida dos cidadãos como um todo, o governo teve de enfrentar graves dificuldades na área econômica nos último 16 meses, incluindo inflação e escassez de bens de primeira necessidade. Continuamos buscando soluções por meio de medidas como a adoção de um novo sistema cambial baseado no mercado, que se destina a reduzir o mercado negro.

E estamos monitorando as empresas para que não procurem extorquir os consumidores ou açambarcar produtos.

A Venezuela vem lutando também com uma elevada taxa de criminalidade.

Procuramos combatê-la com a criação de uma nova polícia nacional, com o fortalecimento da polícia comunitária e com a reforma do nosso sistema prisional.

Desde 1998, o movimento fundado por Hugo Chávez venceu mais de uma dezena de eleições presidenciais, parlamentares e locais mediante um processo eleitoral que o ex-presidente americano, Jimmy Carter, definiu como "o melhor do mundo". Recentemente, em dezembro de 2013, o Partido Socialista Unido da Venezuela recebeu votação esmagadora nas eleições para prefeito ganhando em 255 das 337 prefeituras.

A participação popular na política na Venezuela aumentou drasticamente nos últimos dez anos. Como ex-dirigente sindical, acredito profundamente no direito de associação e no direito cívico de garantir que a justiça prevaleça pela manifestação de preocupações legítimas por meio de reuniões e protestos pacíficos.

As afirmações de que a Venezuela tem uma democracia deficiente e os protestos atuais representam os sentimentos da comunidade são desmentidas pelos fatos. Quem protesta contra o governo são pessoas pertencentes aos segmentos mais privilegiados da sociedade, cujo objetivo é procurar reverter as conquistas do processo democrático que beneficiaram a ampla maioria do povo.

Os manifestantes atacaram e danificaram hospitais, incendiaram uma universidade no Estado de Táchira, apedrejaram e atiraram coquetéis Molotov contra ônibus do transporte público. Visaram também a outras instituições públicas atirando pedras e ateando fogo às instalações do Supremo Tribunal, da companhia telefônica estatal CANTV e o edifício da promotoria.

As ações violentas causaram danos de muitos milhões de dólares. É por isso que os protestos não tiveram apoio nos bairros pobres e da classe trabalhadora.

Os manifestantes têm o único objetivo, inconstitucional, de derrubar o governo eleito democraticamente. Quando começaram sua campanha, em janeiros, os líderes contrários ao governo deixaram isto claro, prometendo criar o caos nas ruas.

Os que criticam legitimamente as condições econômicas ou a taxa de criminalidade estão sendo explorados pelos líderes dos protestos que defendem um violento programa antidemocrático.

No período de dois meses, 36 pessoas perderam a vida. Estamos convencidos de que os manifestantes, são diretamente responsáveis por cerca da metade das mortes. Também morreram seis membros da Guarda Nacional; outros cidadãos foram assassinados enquanto tentavam retirar as barricadas erguidas pelos manifestantes para bloquear o trânsito.

Um número muito pequeno de agentes das forças de segurança também foi acusado de fazer uso da violência, em consequência da qual várias pessoas morreram. São fatos extremamente lamentáveis, e o governo venezuelano respondeu prendendo os suspeitos. Criamos um Conselho dos Direitos Humanos para investigar todos os incidentes relacionados aos protestos. Toda vítima merece justiça, e todo autor da violência - seja ele um partidário ou um adversário do governo - será responsabilizado por suas ações.

Nos EUA, os manifestantes foram definidos como "pacíficos", e, apesar disso, o governo venezuelano tentaria reprimi-los violentamente.

Segundo esta versão, o governo americano apoia o povo da Venezuela; na realidade, está do lado do 1% que quer fazer o nosso país retroceder à época em que 99% estavam impedidos de participar da vida política e apenas alguns - incluindo as companhias americanas - se beneficiavam do petróleo venezuelano.

Não esqueçamos de que alguns dos que apoiaram a derrubada do governo democraticamente eleito da Venezuela em 2002 hoje lideram os protestos. Os envolvidos no golpe de 2002 dissolveram imediatamente o Supremo Tribunal e a Assembleia e rasgaram a Constituição. Os que incitam à violência e tentam ações inconstitucionais semelhantes hoje deverão enfrentar o sistema judiciário.

O governo americano apoiou o golpe de 2002 e reconheceu o governo golpista apesar de seu comportamento antidemocrático. Hoje, o governo de Barack Obama gasta pelo menos US$ 5 milhões ao ano para apoiar movimentos oposicionistas na Venezuela. Um projeto de lei que prevê o envio de mais US$ 15 milhões para estas organizações antigovernamentais tramita atualmente no Congresso. O Congresso também deverá decidir sobre a imposição de sanções à Venezuela. Espero que o povo americano, conhecendo a verdade, decida que a Venezuela e o seu povo não merecem esse castigo, e peça aos seus representantes que não aprovem as sanções.

Esse é o momento do diálogo e da diplomacia. Na Venezuela, estendemos uma mão para a oposição. E aceitamos as recomendações da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) para empreendermos conversações com a oposição. Meu governo também apelou para o presidente Obama, expressando o nosso desejo de trocarmos mais uma vez nossos embaixadores. Esperemos que este governo atenda ao nosso pedido. A Venezuela precisa de paz e de diálogo para seguir seu caminho. Damos as boas-vindas a todos os que quiserem sinceramente nos ajudar a alcançar estes objetivos.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* NICOLÁS MADURO É PRESIDENTE DA VENEZUELA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.