Venezuela - um golpe que durou 46 horas

Um dia depois de serem destituídos por intervençãoda cúpula das Forças Armadas, os membros do governo do presidente deposto Hugo Chávez retomaramneste sábado fisicamente o Palacio Miraflores e recuperaram o poder. O presidente Hugo Chávez foi deposto na madrugada desta sexta-feira.Por volta das 22h locais (23h em Brasília) deste sábado, ovice-presidente deposto, Diosdado Cabello, assumiu a presidência, até o reaparecimento de Chávez. E opresidente interino Pedro Carmona renunciou. De acordo com o ministro da Educação Superior de Chávez,Héctor Navarro, os militares leais ao presidente deposto deram um ultimato à cúpula das Forças Armadas,que o mantinha sob custódia: ou o liberavam até as 22h locais, ou enfrentariam ação militar.Autênticas turbas de chavistas ocupavam ontem à noite o centro de Caracas, cujas ruas e calçadasestavam cobertas de pedaços de paus e lixo, espalhados em atos de depredação. Os simpatizantes dopresidente deposto se postavam no meio das ruas, como que controlando o tráfego e determinando odestino de quem passava.A polícia se concentrava em alguns pontos, entre eles três canais privados detelevisão cercados pelos chavistas. Dois policiais foram mortos e três viaturas da Polícia Metropolitana,depredadas. Essa polícia está subordinada ao prefeito de Caracas, Alfredo Peña, que faz oposição aChávez.No total, nove pessoas morreram e 48 ficaram feridas nos distúrbios. Cabello chegou no fim da tarde deste sábado ao palácio, cercado de simpatizantes de Chávez. José Morado,comandante da Guarda de Honra, cujo contingente de 3 mil homens vigia o palácio presidencial, deixou ovice-presidente entrar no palácio, e declarou sua lealdade a Chávez, num comunicado transmitido peloCanal 8 de televisão, tomado pelos chavistas.Um a um, foram chegando integrantes do governo deposto. Enquanto isso, o presidente interino Pedro Carmona, empossado na sexta-feira com apoio da cúpula dasForças Armadas, encastelava-se no Forte Tiuna, em Caracas, onde deu posse neste sábado ao seu ministro daDefesa, o vice-almirante Héctor Ramírez Pérez, e reconduziu os comandantes das Forças Armadas.Notiroteio de pronunciamentos, um adjetivo permitia identificar quem estava de que lado: os chavistas ocupamcargos da República "Bolivariana" da Venezuela, enquanto os postulantes do governo interino assumirampostos na reinstaurada República da Venezuela, simplesmente.Em meio a tantas incertezas, não se sabia ao certo nem o paradeiro de Chávez. O presidente havia sidolevado, nesta sexta-feira, para o Forte Tiuna, mas, segundo rumores que o governo não confirmou nemdesmentiu, teria sido transferido de lá na madrugada deste sábado, talvez para a Base Aérea de Maracay.Carmona e o comandante do Exército, o general Efraín Vásquez, haviam dito que Chávez estava prestes adeixar a Venezuela ontem, por seu próprio desejo, e com destino não revelado. O presidente daConferência Episcopal, monsenhor Baltasar Porras, atestou a "integridade" de Chávez.Enquanto todos se perguntavam de que lado, afinal, estavam as Forças Armadas, a cúpula militar assumiuontem uma atitude ambígua, deixando claro que havia imposto condições a Carmona em troca de seurespaldo e obrigado o presidente interino a um recuo.Carmona, que, ao tomar posse, nesta sexta-feira,dissolveu a Assembléia Nacional e o Supremo Tribunal de Justiça, reinstalou neste sábado os deputados e disseque eles designariam os novos juízes, procurador-geral e defensor do povo. Mas manteve a convocação deeleições parlamentares para até dezembro e presidenciais no máximo em um ano.O presidente interinodeclarou, ainda, que Chávez não estava detido, mas "sob custódia das Forças Armadas".Em entrevista coletiva concedida em seguida, o general Efraín Vásquez citou a manutenção emfuncionamento da Assembléia Nacional e do Tribunal Supremo de Justiça como condições para as ForçasArmadas apoiarem o novo governo. "Isto não é um golpe", enfatizou Vásquez."Tivemos na Venezuela um problema de perdas humanas e o fato de que o governo nacional perdeu ocontrole da situação", explicou, referindo-se aos 15 mortos e 350 feridos nas manifestações de quinta-feira,que culminaram na deposição de Chávez."Queremos manter a democracia. Amamos a democracia", garantiu Vásquez.Grandes Acontecimentos InternacionaisESPECIAL VENEZUELA

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.