Venezuela utilizará assessoria do MST em produção de fazenda expropriada

Modelo de cooperativas usado em assentamentos no Brasil será usado em terras venezuelanas.

Claudia Jardim, BBC

14 de maio de 2009 | 15h48

A Venezuela utilizará a assessoria do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) para a produção agrícola em uma fazenda expropriada pelo governo em uma nova etapa da chamada "guerra ao latifúndio", que estabelece o resgate de terras consideradas improdutivas.

Expropriada há um mês, a fazenda "El Frío", de 63 mil hectares, será um dos polos de produção arrozeira no Estado de Apure (norte da Venezuela), de acordo com o governo.

Ali, o MST será responsável pelo desenvolvimento de dois projetos experimentais. Um será destinado à produção de arroz e peixe orgânicos, e o outro à criação de gado de leite.

O dirigente do MST na Venezuela, Alexandre Conceição, disse que o trabalho do grupo na fazenda "El Frío" será o de organizar a produção e o trabalho dos agricultores com base no modelo de cooperativas utilizado nos assentamentos do Brasil.

"Depois eles devem assumir sozinhos o projeto, porque o objetivo final é facilitar a transferência tecnológica em agroecologia para que a Venezuela possa alcançar sua soberania alimentar", acrescentou.

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que ordenou seus funcionários a acelerarem o "resgate de terras", defendeu a técnica utilizada pelo MST em suas cooperativas como uma alternativa para incrementar a produtividade do campo venezuelano.

"É possível incrementar em 30% a produção com essas técnicas alternativas", disse Chávez. "No Brasil os sem-terra fazem isso. Aqui, temos uma brigada dos sem-terra há algum tempo trabalhando conosco", afirmou o presidente durante uma reunião do Conselho de Ministros transmitida em cadeia nacional de rádio e televisão, nesta quarta-feira.

Vietnã

A maior parte da produção de arroz na fazenda "El Frío", no entanto, estará a cargo de um grupo de técnicos do Vietnã. O governo pretende produzir 250 toneladas de arroz, em uma tentativa de reduzir os custos de importações do cereal.

Cerca de 70% dos alimentos consumidos na Venezuela são importados. Em 2008, saíram dos cofres da estatal petroleira PDVSA US$ 2,2 bilhões para a compra de alimentos, dos quais quase a metade foram destinados à importação de produtos do Brasil.

O convênio entre o governo venezuelano e os sem-terra começou em 2005, quando Chávez visitou um assentamento da reforma agrária no município de Tapes (Rio Grande do Sul). Neste assentamento, que funcionaria de acordo com o modelo de produção proposto pelo MST, uma das áreas de produção é destinada a arroz e piscicultura.

Na ocasião, foi firmado um acordo entre a Venezuela, o MST e a organização Via Campesina que estabelece a cooperação para a produção de sementes agroecológicas e a colaboração do MST na organização no setor produtivo e dos camponeses em cooperativas.

Em contrapartida, o governo venezuelano "custeia o trabalho" dos 15 integrantes do MST que atuam no país, além da infra-estrutura para a realização do trabalho no campo, segundo Conceição.

"A relação do MST com o governo venezuelano é uma aliança política, não comercial. Corresponde ao nosso princípio de solidariedade", afirmou o dirigente do MST.

Desapropriações

Questionado sobre se o MST está organizando os camponeses venezuelanos para a ocupação de propriedades rurais, Conceição disse que "não é necessário". "Aqui o Estado se encarrega de cumprir a Constituição, ao desapropriar as terras improdutivas", afirmou.

O primeiro trabalho realizado pelos sem-terra na Venezuela foi a criação de um Instituto Internacional de agroecologia para a formação de técnicos agrícolas, uma das cláusulas do convênio assinado em Tapes.

Inaugurado em 2006, em Barinas, Estado natal do presidente venezuelano, o instituto agroecológico leva o nome do educador brasileiro Paulo Freire e tem cerca de 70 estudantes provenientes de sete países da América Latina.

A questão agrária venezuelana é um ponto de permanente conflito entre o governo e o setor privado no país. A expropriação de terras e a regulação de preços dos alimentos tem aprofundado a disputa entre ambos e provocado desabastecimento dos principais produtos da cesta básica no país, entre eles, o arroz.

O governo diz que suas intervenções no campo são direcionadas a terras "improdutivas". "Os produtores que têm suas fazendas e estão produzindo, não se preocupem, porque nós não vamos tomar nada", afirmou Chávez.

Para o setor empresarial e os partidos opositores, no entanto, as medidas do governo são um "ataque" à propriedade privada e à Constituição do país.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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