REUTERS/Jorge Silva
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Venezuelanos apelam a grupos humanitários

Organizações de ajuda denunciam incapacidade de governo chavista de lidar com crise que esvazia prateleiras de supermercados e farmácias

Jéssica Otoboni, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2016 | 05h00

Organizações humanitárias esforçam-se para ajudar os venezuelanos, que vêm sofrendo com a maior crise econômica das últimas décadas no país, intensificada por um impasse político. Na semana passada, a ONU cogitou de enviar uma missão humanitária ao país – algo inédito em uma nação que não está em guerra. 

De um lado está o governo chavista de Nicolás Maduro, que tenta dissolver a Assembleia Nacional, e de outro estão os opositores da Mesa da Unidade Democrática (MUD), que são a maioria no Parlamento e procuram recolher o número de assinaturas necessárias para revogar, por meio de um referendo, o mandato do presidente. 

Diante da acentuada escassez de alimentos e medicamentos, os venezuelanos enfrentam diariamente as consequências da deterioração da capacidade do poder público de fornecer as condições básicas de vida para os cidadãos, diz o ativista Feliciano Reyna, fundador das organizações humanitárias Acción Solidaria e Codevida (Coalizão das Organizações pelo Direito à Saúde e à Vida).

Dependente de produtos importados, a Venezuela registra ampla escassez. Faltam alimentos nos mercados e medicamentos em farmácias e hospitais. Segundo a Federação Farmacêutica venezuelana, os produtos mais escassos são aqueles utilizados para tratamento de câncer, diabetes, epilepsia, doenças cardiovasculares e respiratórias, além de analgésicos e antibióticos. Dentre os alimentos, os mais difíceis de se encontrar são as farinhas de milho e trigo, arroz, café, açúcar e leite.

A precariedade dos atendimentos médicos e a falta de equipamentos e materiais vêm aumentando desde 2014. O país contabilizou 3.719 denúncias de deficiências no sistema de saúde somente em 2015, o que representa um aumento de 40% com relação a 2014, segundo relatórios do Programa Venezuelano de Educação - Ação em Direitos Humanos.

Também em 2015, o gasto com o sistema público de saúde – que atende a mais de 80% da população – aumentou somente 13%, sendo que 74% dele foi financiado com créditos adicionais, dependentes dos recursos externos. O relatório aponta que, até março, a dívida com fornecedores de suprimentos do exterior chegava a US$ 6 bilhões.

Nesse cenário, Reyna afirma que é muito comum ouvir testemunhos de pessoas que tiveram de interromper algum tipo de tratamento em razão da falta de remédios. “O que temos feito com a Acción Solidaria é doar medicamentos para pessoas que não podem encontrá-los no sistema público de saúde ou em farmácias”, afirma.

A escassez é refletida na dificuldade de combater doença como dengue, chikungunya e zika, o que torna a Venezuela um dos países mais vulneráveis da América do Sul. Segundo Boletins Epidemiológicos Semanais do Ministério da Saúde, o país registrou mais de 80 mil casos de dengue entre 2014 e 2015. Em janeiro deste ano havia 4,7 mil casos suspeitos de pessoas com o vírus zika e 90 casos de síndrome de Guillain-Barré (que atinge o sistema nervoso).

O desabastecimento compromete a acessibilidade aos serviços básicos de atendimento. “A situação dos hospitais públicos é desoladora. As pessoas organizam as próprias redes para suprir a falta de medicamentos, que chegam a conta-gotas e de maneira muito irregular aos locais de distribuição”, diz Eleonora Cróquer, uma professora universitária de classe média, separada e com uma filha de 10 anos. “Os produtos nos mercados de luxo têm preços impossíveis para qualquer pessoa que não tenha muito dinheiro. Eu, como professora, não tenho como pagar.”

Desespero. Apesar do trabalho de algumas instituições, Eleonora afirma que a ajuda humanitária não chega a muitas pessoas. A professora de Ciências Políticas e coordenadora de Especialização em Opinião Pública e Comunicação Política da Universidade Simón Bolívar, Yetzy Villarroel, explica que os grupos têm pouca capacidade de organização. “As famílias recorrem a vizinhos e grupos organizados nas redes sociais” para contornar o problema.

Veja abaixo: Escassez de alimentos provoca filas cada vez maiores na Venezuela

Para ela, a situação é “dolorosa” e “alarmante”, agravada pelo fato de que Maduro nega a existência de uma crise. “O problema para aceitar ou não ajuda humanitária está em como se entende a crise, tanto por parte do governo quanto da oposição”, destaca Yetzy.

“As organizações internacionais não podem intervir se o Estado não pedir”, afirma a professora, ressaltando que os partidos políticos “têm demonstrado sua incompetência para enfrentar a situação”.

Para Erika Guevara-Rosas, diretora da Anistia Internacional para Américas, o problema vai além. “Temos visto muitas violações dos direitos humanos por parte do Estado, como limitação da liberdade de expressão e do exercício dos direitos civis e políticos.” A situação se torna ainda mais complexa, pois o país é um dos mais violentos do mundo. O Observatório Venezuelano de Violência aponta que no fim de 2015 foram registradas mais de 27 mil mortes violentas, em uma taxa de 90 mortos para cada 100 mil habitantes.

“De um lado, há pessoas desesperadas para conseguir alimentos básicos e remédios, e, de outro, há violações dos direitos cometidas pelas forças de segurança.” A combinação de todos esses fatores cria uma situação preocupante, destaca Erika.

Nos supermercados, pessoas gastam horas, ou dias, em longas filas para comprar mantimentos. A diretora afirma que a Anistia quer oferecer recomendações e soluções, além de manter aberto o diálogo com Maduro para ajudar o povo venezuelano, pois a dinâmica conflituosa entre um governo que controla a Justiça e uma Assembleia Nacional controlada pela oposição “não está necessariamente ajudando a lidar com a crise que a população enfrenta”.

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