Eitan Abramovich/AFP
Eitan Abramovich/AFP

Venezuelanos comparecem em alto número para renovar o Parlamento

Legislativas. Votação marca retorno da oposição, que havia boicotado a eleição de 2005; de acordo com sondagens, governo de Hugo Chávez deve manter maioria na Assembleia Nacional, apesar de receber menos votos em nível nacional do que seus adversários

Roberto Lameirinhas ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2010 | 00h00

Em plena tranquilidade, segundo o governo, ou recheada de casos de intimidação chavista, na versão da oposição, 70% dos 17,7 milhões de eleitores venezuelanos compareceram às urnas que consagraram os novos 165 integrantes da Assembleia Nacional, a câmara única do Legislativo do país. Até o começo da noite de ontem no Brasil, nenhum boletim de apuração tinha sido emitido pelo Conselho Nacional de Eleições (CNE), principal entidade eleitoral da Venezuela. A divulgação de pesquisas de boca de urna é proibida no país.

De todo modo, a votação de ontem marcou o retorno da oposição venezuelana - que havia boicotado a eleição de 2005 - à Assembleia. De acordo com sondagens publicadas há duas semanas, o governo do presidente Hugo Chávez deveria manter sua maioria na Casa, apesar de receber menos votos (48% do total, segundo o instituto Datanálisis) em nível nacional do que a oposição (52%). A discrepância se daria em razão do redesenho dos distritos eleitorais promovido pelo chavismo no ano passado e homologado pelo CNE.

Assim, a meta da oposição era a de obter 54 cadeiras na Assembleia, o que tiraria de Chávez sua maioria de dois terços e o obrigaria a negociar com o Legislativo a aprovação de leis orgânicas.  

 

 

 

 

 

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Enquanto o presidente celebrava, depois de votar na paróquia de 23 de Enero, o "clima de normalidade e festa cívica" que marcava o dia da votação, líderes opositores denunciavam irregularidades e casos de intimidação por parte dos chavistas em vários pontos do país.

"Grupos ligados ao governo agrediram candidatos da oposição quando tentavam votar em Zulia", acusou o presidente do Conselho Legislativo do Estado, Eliseo Fermín. "Não admitimos esse tipo de intimidação, que revela o desespero de nossos adversários."

Até as 13 horas locais (14h30 em Brasília), a organização não governamental Súmate havia registrado 38 denúncias de "violência e intimidação" contra eleitores. O porta-voz do grupo estudantil de oposição Voto Joven, Roberto Patiño, acusou a Guarda Nacional de ter detido irregularmente três membros do movimento e de invadir a Universidade Simón Bolívar.

A presidente do CNE, Tbisay Lucena, no entanto, assegurou que todos os problemas pontuais do processo de votação, incluindo a propaganda irregular, tinham sido controlados rapidamente pelas forças de ordem.

Na favela do Petare (mais informações nesta página), motociclistas usando camisetas do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) circulavam em grupo na frente do centro de votação onde estava a reportagem do Estado. "Eles tentam nos intimidar, fazem questão de mostrarem-se presentes", disse um dos eleitores partidário da oposição, recomendando que não se olhasse diretamente para os "motorizados".

Em outras partes de Caracas, com exceção de casos de demora provocados por defeitos nas urnas eletrônicas, a votação parecia transcorrer normalmente. A diferença em relação às eleições anteriores no país era a demonstração de decepção com o governo de Chávez, principalmente no que dizia respeito a duas questões: a crise econômica e a falta de segurança.

"Não há trabalho, o governo distribui a riqueza do petróleo a países estrangeiros, não se pode caminhar pelas ruas de Caracas sem o medo de sermos assaltados ou sequestrados", disse Cristian Varella enquanto esperava para votar na Unidad Educativa El Alba, no distrito de classe média Los Palos Grandes, em Caracas.

A estratégia da oposição de ressaltar o brutal crescimento da criminalidade comum no país, aparentemente, foi bem-sucedida. Praticamente todos os habitantes da capital têm uma história para contar de algum parente assaltado ou assassinado nos últimos anos. Segundo estimativas extraoficiais - o governo não divulga as cifras da violência -, 16 mil pessoas foram vítimas de homicídios em todo o país só no ano passado. O número é quatro vezes superior ao de 1999.

"Para todos nós, venezuelanos, existe uma relação direta entre a falta de emprego e de oportunidades com o crescimento do crime", diz o eleitor da oposição Luis Chacón. "Eu votei pela primeira vez em Chávez, em 1998, porque ele prometeu pôr na cadeia os políticos corruptos que empurravam a população de um país rico como o nosso para a pobreza e para o crime. Mas o que ele fez, além de criar um novo grupo de ladrões que se esqueceu do povo?", questionou.

Havia o temor de que as chuvas que têm caído todas as tardes na região de Caracas reduzissem a participação eleitoral - uma vez que o voto no país não é obrigatório. Na sexta-feira, elas haviam causado enchentes no centro da cidade e desmoronamento de encostas na periferia, causando a morte de oito pessoas no distrito de Catia-La Guaira. O dia, porém, amanheceu ensolarado e a chuva que caiu, a partir das 15 horas, foi de pouca intensidade.

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