REUTERS/Carlos Eduardo Ramirez
REUTERS/Carlos Eduardo Ramirez

Venezuelanos em lágrimas entre gôndolas cheias e policiais amáveis

Na fronteira com a Colômbia, multidão se acotovela em busca de produtos básicos, como arroz e xampu

Matthew Bristow / Bloomberg, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2016 | 08h16

CARACAS - Na calada da noite dezenas de milhares de venezuelanos estavam reunidos nos cruzamentos da fronteira, em busca de um breve alívio da mais profunda crise econômica do mundo. Ao amanhecer eles se abarrotavam na Ponte Simón Bolívar do lado venezuelano. Pela terceira vez em um ano, o presidente Nicolas Maduro abriu a fronteira para a vizinha Colômbia e essa multidão aproveitava a oportunidade para comprar produtos básicos como arroz e xampu. 

As forças de segurança colombianas parecem ter recebido ordens para se mostrarem mais simpáticas, sorrindo e dizendo “bem-vindos à Colômbia” quando os venezuelanos passavam. Pelo menos três mulheres começaram a chorar ao chegarem do lado colombiano. Um homem gritou “viva a Colômbia”. Alguns amaldiçoavam o governo de Maduro, por reduzi-los ao ponto de precisar atravessar uma fronteira internacional para comprar produtos básicos.

“Fomos uma nação super rica e agora veja como estamos”, disse Yorcy Expósito, que saiu de sua casa na cidade de San Cristóbal às 4 horas da manhã. “Este governo tem de sair e não voltar. Eles nos humilham.”

A Venezuela tem sido atingida por tumultos em razão do desabastecimento. Há ondas de saques e a escassez piora. As pessoas permanecem em filas durante horas sob o calor tropical para, ao final, ver que os produtos que querem se esgotaram. Por outro lado, a cidade de fronteira colombiana de Cúcuta parecia o paraíso das compras.

Após a abertura da fronteira, às 6 da manhã, os venezuelanos se dividiram carregando malas vazias que pretendiam encher com produtos. Com a fronteira aberta apenas por algumas horas, muitos imediatamente entraram nos ônibus fornecidos pelas autoridades locais e seguiram para o centro de Cúcuta, cujas lojas foram abertas logo cedo para eles.

No supermercado Los Montes se abasteciam de arroz, óleo de cozinha e farinha de milho. Alguns compravam papel higiênico, absorventes, bloqueador solar, sabonete e xampu.

O governo venezuelano tinha ordenado o fechamento da fronteira no ano passado para refrear o contrabando de gasolina e de outros produtos subsidiados para a Colômbia. Apesar disso, a escassez piorou em razão do controle de preços, expropriação de produtores locais e queda do preço do petróleo nos últimos dois anos.

A economia da Venezuela, que possui as maiores reservas de petróleo do mundo, deve encolher 8% este ano segundo o FMI, a queda mais aguda entre todas as economias analisadas pelo fundo. 

A demanda para entrar na Colômbia foi tão forte que as autoridades foram obrigadas a abrir a fronteira por períodos curtos nas últimas semanas, disse o governador da Província de Santander, William Villamizar. “Para evitar um corre-corre, caso em que poderia ocorrer mortes ou algo parecido, eles preferiram abri-la”, disse Villamizar. 

Uma vez na Colômbia, muitos acharam fácil fazer suas compras, em comparação com as longas filas, frustrações e às vezes brigas vividas na Venezuela. “Para conseguir um quilo de arroz, você fica na fila entre seis e oito horas, é maltratado, furam a fila, e então, quando está para entrar eles fecham o mercado e dizem que foi tudo vendido”, disse Rosalba Duarte, enfermeira.

 

Mais conteúdo sobre:
Venezuela Nicolás Maduro

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.