AP Photo/Eric Gay
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Venezuelanos fogem em massa de países latinos para os EUA após piora da pandemia

Em maio, 7.484 venezuelanos foram encontrados cruzando a fronteira, número maior do que todos os 14 anos para os quais existem registros

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2021 | 05h00

DEL RIO, TEXAS - Marianela Rojas para e faz orações com seus companheiros, em uma pausa chorosa após caminhar por um estreito caminho do Rio Grande e quase desabar no gramado do quintal de alguém, ao pisar em solo americano pela primeira vez.

"Não falarei de novo", interrompe um guarda da Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos, dando ordens em espanhol para Marianela Rojas e uma dúzia de outros migrantes entrarem em uma van com destino a um centro de detenção. "Apenas passaportes e dinheiro em suas mãos. Todo o resto - brincos, correntes, anéis, relógios - em suas mochilas. Chapéus e cadarços também."

Essa é uma cena comum na fronteira entre EUA e México em tempos de crise migratória. Mas, esses migrantes não são fazendeiros e trabalhadores mal remunerados vindos do México ou de países da América Central, que constumam ser a maior parte dos que fazem essa travessia. Eles são banqueiros, médicos e engenheiros da Venezuela e estão chegando em números recorde por fugirem da turbulência que vive o país com as maiores reservas de petróleo do mundo e afetado pela grave situação da pandemia de covid-19 na América do Sul.

Dois dias após cruzar a fronteira, Marianela Rojas deixou o centro de detenção e se apressou para pegar um ônibus na cidade de Del Rio, no Texas. Entre telefonemas para pessoas queridas que não sabiam onde ela estava, a venezuelana de 54 anos contou que fugiu da crise na Venezuela há alguns anos, deixando uma casa e uma carreira consolidada como professora do Ensino Fundamental por um novo começo no Equador.

Mas quando acabaram as poucas oportunidades que encontrou como faxineria, ela decidiu migrar novamente - desta vez sem os filhos. "Acabou, acabou tudo", disse ela ao telefone recentemente, chorando quando seu neto pequeno apareceu sem camisa na tela. "Tudo era perfeito. Eu não parei de me mover por um segundo."

Em maio deste ano, 7.484 venezuelanos foram encontrados cruzando a fronteira do México com os EUA, segundo a Patrulha de Fronteira americana - número maior do que todos os 14 anos para os quais existem registros.

O surpreendente aumento levou a comparações com o fluxo migratório de cubanos que deixaram o governo comunista de Fidel Castro em meados do século. É também o prenúncio de um novo tipo de migração que pegou o governo do democrata Joe Biden desprevenido: a pandemia de refugiados.

A maioria dos cerca de 17.306 venezuelanos que cruzaram a fronteira sul de forma ilegal desde janeiro estava vivendo há anos em outros países da América do Sul, parte do êxodo de quase 6 milhões de venezuelanos que deixaram o país desde que Nicolás Maduro assumiu a presidência, em 2013.

Enquanto alguns são opositores ao governo Maduro que temem ser perseguidos e presos, a grande maioria é formada por quem foge da devastação econômica que já dura anos na Venezuela, marcada por apagões, escassez de alimentos e remédios. 

Com a pandemia da covid-19 se agravando em várias regiões da América do Sul, esses venezuelanos tiveram de se realocar novamente. Cada vez mais, eles se juntam na fronteira americana a pessoas dos países aos quais inicialmente fugiram - números maiores de equatorianos e brasileiros chegaram aos EUA este ano -, além de pessoas que fogem de nações distantes gravemente afetadas pelo novo coronavírus, como Índia e Uzbequistão.

Dados do governo americano mostram que 42% de todas as famílias encontradas ao longo da fronteira em maio chegaram de outros lugares além do México, El Salvador, Guatemala e Honduras - as saídas tradicionais das tendências migratórias. Isso se compara a apenas 8% durante o último aumento acentuado na migração, em 2019. A Patrulha de Fronteira registrou mais de 180 mil migrantes encontrados em maio, um recorde de duas décadas que inclui as repetidas tentativas dos migrantes de cruzar para os EUA.

Em comparação a outras nacionalidades de migrantes, os venezuelanos têm certos privilégios - reflexo de sua situação financeira mais sólida, níveis de educação mais altos e políticas dos EUA que falharam em retirar Maduro do poder, mas que tornaram a deportação praticamente impossível.

A grande maioria dos venezuelanos entra nos EUA perto de Del Rio, uma cidade de 35 mil habitantes, e não tenta fugir da detenção, ao contrário, se entrega aos agentes de fronteira para tentar conseguir asilo.

Além de Del Rio, os venezuelanos entram por outras regiões remotas, como Yuma, "onde há pouca infraestrutura, organizações sociais e mesmo pessoas para contatar", explica ao Estadão Adam Isacson, diretor na WOLA (Washington Office on Latin America - grupo de advocacia pelos direitos humanos nas Américas). 

Como muitas das dezenas de venezuelanos com os quais a agência Associated Press falou em junho em Del Rio, Lis Briceno, de 27 anos, já havia migrado antes. Depois de se formar em engenharia petrolífera, ela não podia ser contratada nos campos de petróleo perto de sua cidade natal, Maracaibo, sem declarar sua lealdade à liderança socialista da Venezuela. Então se mudou para o Chile há alguns anos, procurando emprego em uma empresa de tecnologia.

Mas com as manifestações contra o governo de Sebastián Piñera e a pandemia afetando a economia chilena, as vendas despencaram e a empresa onde Lis Briceno trabalhava fechou. Ela vendeu o que tinha - uma geladeira, um telefone e uma cama - para conseguir os US$ 4 mil que precisava para a viagem até solo americano. A venezuelana encheu uma mochila e partiu com um amuleto de cadeados de coração que ganhou para afastar os maus espíritos. 

"Eu sempre pensei que viria para cá passar férias, visitar lugares que a gente vê nos filmes. Mas fazendo isso? Nunca", afirmou a jovem. 

Enquanto centro-americanos e outros podem passar meses viajando pela selva, acomodando-se em trens de carga e dormindo em acampamentos improvisados administrados por cartéis em seu caminho para o norte, a maioria dos venezuelanos chega aos EUA em apenas quatro dias.

A viagem dos venezuelanos 

“Esta é uma jornada para a qual eles estão definitivamente preparados do ponto de vista financeiro”, disse Tiffany Burrow, diretora do abrigo Val Verde Border Humanitarian Coalition em Del Rio, onde os migrantes podem comer, se limpar e comprar passagens de ônibus para Miami, Houston e outras cidades com grandes comunidades venezuelanas.

Eles voam primeiro para a Cidade do México ou Cancún, onde diminuiu drasticamente a chegada de turistas estrangeiros, mas quase 45 mil venezuelanos chegaram nos primeiros quatro meses de 2021. Enquanto isso, contrabandistas de pessoas que se promovem como "agentes de viagens" se multiplicaram no Facebook, alegando oferecer transporte descomplicado para os EUA em troca de cerca de US$ 3 mil.

"Estamos fazendo as coisas da maneira que eles fazem aqui - por baixo dos panos", disse um contrabandista em uma mensagem de voz que um migrante compartilhou com a Associated Press. "Você nunca estará sozinho. Alguém sempre estará com você".

O preço cobrado inclui uma saída guiada de Ciudad Acuna, onde a maior parte dos venezuelanos cruza o Rio Grande. A cidade miserável a algumas centenas de passos de Del Rio é atraente tanto para contrabandistas quanto para migrantes com mais possibilidades financeiras, porque foi amplamente poupada da violência vista em outros lugares da fronteira.

"Se você é um contrabandista no negócio de transportar uma mercadoria - porque é assim que eles enxergam dinheiro, armas, pessoas, drogas e tudo o que movem, como um produto - então você deseja fazer o transporte através da área mais segura possível cobrando o preço mais alto possível", disse Austin L. Skero II, chefe do setor Del Rio da Patrulha de Fronteira dos EUA.

Mas o número de contrabandistas pegos com armas aumentou recentemente na região, e os agentes que normalmente perseguem criminosos estão enrolados nos processos com migrantes. O aumento na travessia de migrantes é "puramente uma tática de desvio usada pelos cartéis" para cometer crimes, afirma Skero, enquanto um grupo de haitianos carregando crianças pequenas surgia de um matagal de cana alta na margem do rio.

Ao chegar nos EUA

Uma vez em solo americano, os venezuelanos tendem a se sair melhor do que outros grupos. Em março, Biden concedeu a proteção temporária a cerca de 320 mil venezuelanos. A designação permite que pessoas provenientes de países devastados por guerras ou desastres trabalhem legalmente nos EUA e oferece proteção contra deportação.

Embora os recém-chegados não se qualifiquem, os venezuelanos que pedem asilo - como quase todos fazem - tendem a ter sucesso, em parte porque o governo dos EUA corrobora relatos de repressão política. Apenas 26% dos pedidos de asilo de venezuelanos foram negados este ano, em comparação a uma taxa de rejeição de 80% para requerentes de asilo de países mais pobres e atormentados pela violência na América Central, de acordo com o Transactional Records Access Clearinghouse da Universidade de Syracuse.

"Posso escrever seus pedidos de asilo quase de cor", disse Jodi Goodwin, um advogado de imigração em Harlingen, Texas, que representou mais de 100 venezuelanos. "Essas são pessoas com nível educacional mais alto que podem se defender e contar suas histórias de uma maneira cronológica e simples, como os juízes estão acostumados a pensar."

Até mesmo os venezuelanos que estão sendo deportados têm esperança. O governo do ex-presidente Donald Trump rompeu relações diplomáticas com Maduro ao reconhecer o opositor Juan Guaidó, que se auto declarou presidente venezuelano, como o líder legítimo da Venezuela em 2019. As viagens aéreas estão suspensas, mesmo os voos fretados, tornando a remoção de quem deve ser deportado quase impossível.

Enquanto isso, conforme os migrantes deixam Del Rio para se encontrar com seus entes queridos nos EUA, eles estão confiantes de que, com sacrifício e trabalho árduo, terão uma oportunidade, o que lhes foi negado em seu país de origem.

Lis Briceno disse que se tivesse ficado na Venezuela estaria ganhando o equivalente a US$ 50 por mês - o suficiente para sobreviver. "A verdade é essa", afirma, apressada para pegar um ônibus para Houston, onde seu namorado conseguiu um emprego bem remunerado na indústria do petróleo. "É melhor lavar banheiros aqui do que ser engenheiro lá". / AP, Colaborou Fernanda Simas

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