WILLIAM NEUMAN e WILLIAM RASHBAUM, THE NEW YORK TIMES

14 de novembro de 2015 | 02h00

Para muitos venezuelanos, Cilia Flores, mulher do presidente Nicolás Maduro, representa um tipo particular de valores familiares. Quando assumiu o poderoso cargo de presidente da Assembleia Nacional durante o governo do ex-presidente Hugo Chávez, ela foi acusada de colocar 40 parentes em cargos públicos, um escândalo de nepotismo que levou até mesmo os partidários radicais da revolução chavista a denunciar seus atos.

Agora, com mais influência do que nunca na posição de primeira-dama, ela e o marido se deparam com outro grupo de parentes que vem lhes causando dor de cabeça. Dois sobrinhos de Cilia foram detidos e devem responder a processo nos EUA. Eles foram identificados como Efraín Antonio Campo Flores, de 29 anos, e Francisco Flores de Freitas, de 30.

As autoridades americanas já vinham sugerindo que Cilia ou Maduro sabiam ou tinham algum envolvimento no tráfico de drogas. A relação familiar poderá provocar problemas para o presidente com a aproximação das eleições legislativas do dia 6, já que reforça as preocupações da sociedade com relação à corrupção, vínculos com narcotraficantes e o tratamento privilegiado de membros da família nos altos escalões do governo.

As acusações contra os sobrinhos de Cilia são apenas a mais recente de uma série de investigações envolvendo pessoas próximas de Maduro e Chávez. Um ex-chefe da inteligência do governo nomeado cônsul em Aruba por Maduro foi indiciado no ano passado pela polícia americana por estar na lista de pagamentos de traficantes colombianos.

No início do ano, autoridades americanas informaram estar investigando acusações de tráfico de drogas contra Diosdado Cabello, o poderoso presidente da Assembleia Nacional. Cabello negou ligação com traficantes. Em ambos os casos, Maduro defendeu enfaticamente os homens e acusou os EUA de tentar arruinar seu governo.

O nepotismo é um outro tópico que provoca muita discussão. Chávez, que presidiu o país durante 14 anos até sua morte, em 2013, colocou um irmão na presidência da companhia elétrica nacional e um primo num alto cargo na estatal do petróleo. Outro irmão foi ministro da Educação, antes de ser eleito governador do seu Estado natal.

MasNo entanto, uma das mais enfáticas acusações envolvendo parentes de dirigentes nos últimos anos ocorreu quando Cilia Flores presidia a Assembleia Nacional, de 2006 a 2011.

Em 2008, o líder de um sindicato pró-governo que representa os funcionários do Congresso acusou Cilia de desrespeitar procedimentos normais na contratação de 40 parentes para cargos no governo, ignorando candidatos que já estavam qualificados.

Cilia negou ter dado tratamento especial a parentes, afirmando que foram contratados com base no mérito. Dados online do governo indicam que diversos parentes da primeira-dama continuam nos seus cargos no governo.

Cilia e Maduro viviam juntos há anos, mas só se casaram depois que ele foi eleito presidente, em abril de 2013. Desde que se tornou primeira-dama, sua influência aumentou e hoje é considerada uma das pessoas mais poderosas do governo. Ela é candidatou novamente a um posto na Assembleia Nacional no dia 6.

Maduro não tem a mesma reputação da mulher na contratação de membros da família em posições de poder, com exceção do seu filho, Nicolás Maduro Guerra. Em 2013, ele foi colocado na chefia de um grupo de inspetores especiais cuja função era avaliar a eficácia das políticas do governo e combater a corrupção.

Os sobrinhos de Cilia foram presos na terça-feira no Haiti. No processo aberto em Manhattan, eles foram acusados de conspiração para transportar cocaína para os EUA. Mike Vigil, ex-diretor de operações internacionais da DEA, disse que os dois foram atraídos para o Haiti por investigadores. Eles esperavam se encontrar ali com um homem que os ajudaria a transportar a cocaína para os EUA. "Há pessoas em todos os níveis do governo envolvidas no comércio da droga", disse Vigil, referindo-se à Venezuela. "Maduro age ao contrário de muitos líderes no mundo, que, em caso de alegações de corrupção ou envolvimento no comércio de droga, você acha que as acusações serão investigadas, não rejeitadas"./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*WILLIAM NEUMAN e WILLIAM RASHBAUM SÃO JORNALISTAS

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