Ronaldo Schemidt / AFP
Ronaldo Schemidt / AFP

Venezuelanos na Argentina se deparam com outra crise e outra esquerda

Centenas de cidadãos do país caribenho apoiam a reeleição de Mauricio Macri e temem que uma possível vitória do peronista de centro-esquerda Alberto Fernández leve ao país uma crise como a da Venezuela

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2019 | 15h55

BUENOS AIRES - "Vamos Macri!", grita o venezuelano Alexander Alcalante ao lado de dezenas de milhares de argentinos em uma manifestação em Buenos Aires para apoiar a reeleição do presidente. Recém-chegado à Argentina, ele teme que uma vitória do peronista de centro-esquerda Alberto Fernández leve ao país uma crise como a da Venezuela.

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Aos gritos de "Sí, se puede!" (Sim, é possível), uma centena de venezuelanos participou de um ato político de Mauricio Macri na último fim de semana, antes do encerramento da campanha para as eleições de domingo. Durante o ato, o presidente saudou os venezuelanos que defendem seus "mesmos valores".

"Viemos em apoio a Macri, que os argentinos entendam que seu voto é a melhor arma para que não deixem que o socialismo se instale", disse Alcalante, debaixo de uma imensa bandeira venezuelana.

Embora não seja o país latino-americano com maior número de migrantes venezuelanos, sua chegada à Argentina aumentou exponencialmente. De 2.278 em 2013, agora somam 170.000.

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Estas pessoas estão marcadas pela pior crise econômica e política da história venezuelana recente, com uma hiperinflação fora de controle, falta de alimentos e medicamentos, interrupções nos serviços de energia e de água, assim como violentas manifestações e denúncias de tortura e execuções extrajudiciais.

Medo da "Argenzuela"

O favoritismo de Fernández para a votação, com 48% dos votos obtidos nas primárias, deixou em alerta os venezuelanos.

"Eu digo aos argentinos que eu venho do futuro, eu sei o que é o socialismo, eu conheço a mentira", lamenta a analista de segurança Leticia Rodríguez, que em Buenos Aires vende 'arepas' (tipo de pão típico de Colômbia e Venezuela) e 'empanadas'.

Fernández não se define como socialista, mas provocou polêmica ao assegurar que na Venezuela não há ditadura, mas sim um "governo autoritário". Sua colega de chapa, a ex-presidente Cristina Kirchner (2007-2015), foi aliada e amiga do presidente falecido Hugo Chávez, mentor de Nicolás Maduro, o atual mandatário.

Leticia admite seu temor, enquanto mergulha as 'empanadas' no óleo quente: "Que volte a insegurança, a escassez... E tenhamos que sair de novo", enumera, referindo-se ao que lhe causa medo.

Eduardo Rodríguez, estudante venezuelano de 26 anos, também se diz temeroso. "Na Venezuela nos diziam que não podíamos ser Cuba. Falavam de 'Cubazuela' e muitos riam. No fim, viramos Cuba. Nenhum país está isento", afirma.

Mas para Michael Shifter, do centro de estudos americano Diálogo Interamericano, "não há nenhuma possibilidade de que Fernández repita o cenário da Venezuela".

O especialista argumenta que Fernández é "moderado, pragmático", e diferentemente da Venezuela, a Argentina tem instituições independentes, uma economia diversificada e uma classe média ainda forte.

Crise em cima de crise

Jolymar Hernández, empreendedora de 32 anos, afirma que continuará apostando nos restaurantes venezuelanos que abriu em Buenos Aires, independentemente de quem vença as eleições.

"Vamos respeitar o que o povo argentino decidir. Desejamos, de todo coração, que seja o melhor para a Argentina", diz ela, proprietária do Chacaíto, um restaurante colorido que recria uma das estações de metrô de Caracas.

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No entanto, Jolymar admite que a economia argentina atravessa uma crise que faz lembrar a da Venezuela. "Aumentaram todos os serviços, a comida, todos os setores foram afetados e nós, como comerciantes, nos vemos obrigados a aumentar o preço", explica.

A Argentina está em recessão desde 2018, com uma das inflações mais altas do mundo (37% até setembro), desvalorização do peso e aumento da pobreza (35,4%).

"A princípio, as remessas que enviávamos à Venezuela eram suficientes, mas agora não mais. Agora não estão bem lá e aqui estamos apertados", queixa-se Leticia.

Tabuleiro latino-americano

Uma vitória de Fernández representaria um ajuste de forças entre direita e esquerda na América Latina. Com Macri, a Argentina reconheceu o líder opositor venezuelano Juan Guaidó como presidente interino, assim como meia centena de outros países, e integrou o Grupo de Lima, que forma uma frente comum ante a crise venezuelana.

Para Shifter, se Fernández chegar à Presidência, "vai tentar jogar um papel mais neutro e a frente unida latino-americana contra Maduro se enfraqueceria" ainda mais depois da chegada do esquerdista Andrés Manuel López Obrador à presidência do México, em dezembro de 2018.

Alheia à política, Leticia desfia carne para preparar suas 'arepas' e reforça a esperança de uma vitória de Macri. "Para estar em um socialismo na Argentina, vou para um socialismo na Venezuela, porque lá é meu país e tenho as minhas coisas", afirma. / AFP

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