REUTERS/Christian Veron
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Venezuelanos preferem lavar privadas nos EUA a morar no país do chavismo

Exilados respondem a comentário de Nicolás Maduro, que havia criticado os cidadãos que deixaram o país para 'lavar privadas nos Estados Unidos'

Rachelle Krygier, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

06 Abril 2018 | 05h00

Em um discurso na terça-feira, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, zombou dos muitos cidadãos que deixaram o país nos últimos anos, afirmando que eles lamentam terem fugido para, no fim, acabarem “lavando privadas em Miami”. O comentário causou indignação e provocou respostas iradas dos venezuelanos no exílio. 

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“Maduro não precisa lavar privadas no exterior porque ele transformou a Venezuela em seu próprio banheiro”, tuitou Chelo Diaz, reproduzindo uma piada que circula na Venezuela.

A Venezuela vive um êxodo em massa – mais de 1 milhão de pessoas abandonaram o país nos últimos dois anos, segundo a Organização Internacional para Migração – e não há indícios de que o fluxo seja interrompido. Pesquisa recente indicou que outro milhão planeja ir embora. 

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O Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) informou recentemente que o número de venezuelanos pedindo asilo no exterior cresceu 2.000% desde 2014. Novas orientações foram expedidas pelo Acnur para que outros países tratem os migrantes venezuelanos como refugiados. 

Além da repressão política, a economia do país entrou em colapso. Estima-se que a inflação feche o ano em 13.000%, a mais alta do mundo, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). As prateleiras dos supermercados estão vazias, a infraestrutura médica desmorona e o número de crianças abandonadas aumentou – entre outras crises. 

Maduro, candidato à reeleição em maio, afirma que o total de venezuelanos que deixam o país é menor que o que dizem as organizações internacionais. No discurso de terça-feira, em Barquisimeto, ele chamou de “propaganda anti-Venezuela” as reportagens sobre os problemas que o país enfrenta. Seu governo tem acusado a imprensa internacional de promover uma “guerra psicológica”. 

Em resposta ao discurso de terça-feira, venezuelanos afirmaram que é preferível lavar privada a permanecer no país. “O salário mínimo na Flórida, que é o que ganham esses que Maduro ironizou, é de US$ 1.400 mensais”, disse no Twitter o técnico em petróleo Francisco Monaldi. “Na Venezuela, é de menos de US$ 6. Maduro destruiu o país e agora debocha de quem dá duro para sobreviver.”

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“Maduro diz que os venezuelanos no exterior lavam privadas, mas não diz que na Venezuela, graças a seu governo corrupto, nem os que têm os melhores empregos conseguem pôr comida na mesa”, tuitou Héctor Manrique. 

Roberto Jimenez, advogado venezuelano que hoje vive em Miami, postou uma carta aberta a Maduro: “Sabe quanto eu ganho lavando privadas aqui? Eles me pagam US$ 4 por hora, o que dá US$ 32 por dia. No fim do mês, recebo o que nunca ganhei em toda a minha carreira de advogado na Venezuela.”

Jimenez termina a carta dizendo-se “um lavador de privadas venezuelano com os bolsos cheios, grato ao país que me dá oportunidade de limpar sua sujeira, ao contrário do seu, que se afunda na própria merda”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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