REUTERS/Carlos Garcia Rawlins (VENEZUELA
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins (VENEZUELA

Venezuelanos procuram na internet o que não encontram nas prateleiras dos supermercados

População recorre a grupos no Facebook para tentar encontrar produtos como leite, fraldas e remédios; alguns tentam vender celulares e motos para conseguir dinheiro e sobreviver no país que passa por uma grave crise econômica

Claudia Müller, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2017 | 05h00

Há seis meses o engenheiro de sistemas Rolands Caballero decidiu fazer parte de um dos vários grupos venezuelanos de troca e venda de alimentos, remédios e outros produtos básicos. Diante da escassez que assola o país, ele encontrou, nas redes sociais, uma possibilidade de conseguir leite para as duas filhas, oferecendo comida como pagamento e colocando diversos eletrodomésticos da casa à venda.

Morador da capital Caracas, ele diz que a filha mais nova, de apenas 1 ano, possui uma hérnia no umbigo desde que nasceu. A solução é cirúrgica. Porém, como os hospitais do país também passam por uma grave crise, Caballero teme que ela fique ainda mais doente. "Pedimos ajuda à Deus todos os dias, mas se chegar o momento da operação, espero que tenhamos condições de comprar o que for necessário."

Caballero conta que, diante desse cenário, quer deixar o país. "Quem te falar que não quer é porque está tirando proveito dessa situação ou porque tem muitas propriedades", afirma. Segundo ele, mais difícil do que deixar toda a vida para trás é permitir que aconteça algo com um filho, sabendo que poderia ter feito algo para evitar o ocorrido.

Contudo, enquanto não consegue dinheiro para levar a família para longe dali, segue oferecendo produtos nos grupos de Facebook. Em um deles, chamado "Troca apenas em Vargas e Caracas, artigos de primeira necessidade", que conta com mais de 3 mil membros, ele ofereceu macarrão e açúcar em troca de leite em pó. Além disso, vende galões de água por 5 mil bolívares (cerca de R$ 5 no mercado paralelo, que paga aproximadamente 1 mil bolívares por R$ 1).

Outros produtos da casa foram colocados à venda e quanto mais o desespero aumenta, mais o preço cai: um esterilizador de mamadeira passou de 35 mil bolívares para 15 mil em pouco mais de um mês. O modem de internet começou a ser vendido por 45 mil, depois 40, 35 e hoje Caballero oferece por 20 mil. O ar condicionado passou de 250 mil para 220 mil. O mesmo aconteceu com a geladeira e os pisos de cerâmica.

"A situação está muito alarmante, as pessoas estão em seu estado mais crítico", lamenta Caballero. "Vejo muitas buscando comida no lixo a qualquer hora do dia".

Outra das reclamações é a falta de empregos. Ele diz que não há vagas nem para serviços braçais, como varrer a rua ou lavar banheiros. "O problema é essa política que só busca seus interesses, não os dos venezuelanos."

A moradora de San Cristóbal, capital do Estado de Táchira, Liliana Soledad escolheu o grupo "Compro, Vendo e Troco San Cristóbal", de mais de 48 mil participantes, para conseguir remédios para a família. A decisão de se tornar membro surgiu há dois anos, quando ficou mais difícil conseguir fraldas para o filho recém-nascido. "As fraldas estavam desaparecendo e a única forma de conseguir comprá-las, caso houvesse nos mercados, era levando a certidão de nascimento do bebê e apenas em uma vez na semana", explica.

Os grupos permitiram conhecer onde estavam sendo vendidas as fraldas e demais produtos de consumo diário. No começo, ela participava para conseguir também papinhas para o bebê. Agora, busca remédios. "Dependendo do que o médico me passa, eu busco nesses grupos, porque não há medicamentos para hipertensão, por exemplo", explica. "Os sprays para o tratamento de sinusite também estão em falta, então preciso ir a Cúcuta, na Colômbia, para poder comprar."

Há também quem divulgue a venda de celulares, motos, televisores e caixas de som. Até mesmo implantes contraceptivos e DIUs (Dispositivo Intra-Uterino) são anunciados. Porém, os produtos mais ofertados e procurados são alimentos e remédios.

Também em San Cristóbal, um morador que não quis se identificar por medo de represálias, conta que há seis meses usa o grupo para conseguir alimentos. Geralmente, oferece em troca remédios para os mais variados problemas, como anticonvulsionantes, para tratamento de úlceras estomacais e antibióticos. "A situação está tão caótica que às vezes até dou os remédios, porque as pessoas estão muito desesperadas".

Em um ano, ele conta que perdeu 26kg em razão da escassez de alimentos, passando de 100kg para 74kg. Segundo a mais recente Pesquisa sobre Condições de Vida na Venezuela, mais de 70% das pessoas perderam, em média, 8,7kg. "Se você mora aqui, sabe o que uma mãe sofre para alimentar seus filhos, e estar doente é como uma sentença de morte", lamenta. "Ambos os lados, oposição e situação, são nulos e o governo desgraçadamente quer sangue."

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