REUTERS/Dado Ruvic/lllustratio
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Venezuelanos recorrem à mineração de bitcoins para fugir da inflação

Pessoas comuns adaptam seus computadores e conseguem tirar mais ou menos US$ 15 por mês, uma vez e meia o salário mínimo atual

O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2017 | 12h18

CARACAS - Um prédio de escritório em Caracas guarda um segredo: 20 computadores que "mineram" bitcoins- moeda eletrônica ilegal no país usada como maneira de escapar da galopante hiperinflação venezuelana. As criptomoedas, como são chamadas ess espécie de dinheiro virtual contestado em muitos países, estão se popularizando na Venezuela. Alguns usuários conseguem milhares de dólares por mês ao destinar computadores especiais para a mineração dos bitcoins.

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Pessoas comuns adaptam seus computadores e conseguem tirar mais ou menos US$ 15 por mês. Parece pouco, mas no mercado negro esse dinheiro se transforma em 500 mil bolívares, quase o dobro do salário mínimo atual, cotado em 35o mil bolívares. 

 

Segundo Randy Brito, fundador do site BitcoinVenezuela.com, a atividade de minerar criptomoedas começou em 2014, quando a queda do petróleo agravou a crise econômica no país. A mineração consiste em operações matemáticas que requerem um grande volume de processamento de dados para validar transações feitas em bitcoins.  Como recompensa, essas máquinas recebem uma fração desses bitcoins, que podem ser convertidos em dólares, bolívares ou vale-compras. 

Verônica, que pediu para usar um nome fictíticio, trabalha com a mineração de bitcoins, e disse que o chefe dela instalou o programa em 2015, por recomendação do filho de um sócio. "Algumas máquinas rendem US$ 800 por mês, mas algumas são muito velhas", diz. "Ficam ligadas todos os dias e meu chefe recebe um email dizendo quando dinheiro recebeu."

Ao observar os ganhos do chefe com a especulação de criptomoedas, Verônica juntou dinheiro para comprar um computador com dois amigos. Hoje os três conseguem ganhos de US$ 920 por mês

O mecanismo permite o acesso a dólares cada vez mais escassos e controlados pelo governo do presidente Nicolás Maduro, que tem poucas reservas cambiais em caixa para honrar os compromissos da dívida externa venezuelana, bem como para importar bens e insumos para alimentos e remédios. A inflação neste ano na Venezuela deve chegar a 1.400% este ano, segundo a consultoria Ecoanalítica. 

"Quem usa bolívares para comprar bitcoins também se protege contra a inflação, porque este se valoriza em relação ao dólar"!, diz Brito. 

Os mineradores de bitcoins também usam a criptomoeda para comprar remédios e alimentos escassos na Venezuela em outros países. Segundo o site Localbitcoins, as transações envolvendo bitcoins na Venezuela somaram US$ 1 milhão no último mês. 

Não é possível ao certo estimar quantos venezuelanos recorrem à mineração porque muitos se protegem usando servidores de países vizinhos.  "As pessoas estão comprando computadores como loucas. Compram na china por cerca de US$ 1mil", diz Verônica.

Além dos gastos com a máquina, frequentemente é necessário subornar um funcionário da aduana para liberar a entrada do computador na Venezuela. A propina é estimada em US$ 800. 

Como as máquinas gastam muita energia para processar os dados e frequentemente é necessário resfriá-las com auxílio de máquinas de ar-condicionado, o governo passou a monitorar locais cujo consumo elétrico dispara momentaneamente  - um indício de mineração de criptomoedas. "O Sebin ( serviço secreto bolivariano) visita esses locais e cobra propinas para liberá-los", diz Verônica. /AFP

 

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