Carlos Garcia Rawlins / Reuters
Carlos Garcia Rawlins / Reuters

Venezuelanos transplantados recorrem a remédios para animais

Medicamentos desapareceram das farmácias no começo de julho; escassez no setor chega a 70%

O Estado de S. Paulo

07 de agosto de 2015 | 16h01

CARACAS - A escassez na Venezuela está obrigando as pessoas que fizeram transplantes a recorrer aos remédios veterinários. “É humilhante”, disse Kevin Blanco ao mostrar a caixa de remédios para animais que comprou após ter um rim transplantado. Segundo dados particulares, a falta de medicamentos no país chega a 70%.

A Prednisona e o Cellcept, imunossupressores que evitam a rejeição do organismo aos órgãos transplantados, desapareceram das farmácias desde o começo de julho, de acordo com pacientes. Eles estão em uma situação crítica, já que não podem suspender o uso do remédio.

“Quando acabou a Prednisona humana, todo mundo começou a procurar a canina”, disse o presidente da Federação Farmacêutica, Freddy Ceballos. “Está se colocando em risco a vida das pessoas”, alertou Francisco Valencia, presidente da fundação Amigos Transplantados, que apoia esses pacientes conseguindo os medicamentos necessários.

Kevin Blanco tem 47 anos e um rim transplantado desde os 15. Ficou sem os seus remédios durante um mês até terça-feira, quando o seguro social voltou a distribui-los. Nesse tempo, teve que recorrer a Prednisona veterinária.

“É humilhante saber que sua vida depende de um medicamento para animais”, afirma ao mostrar a embalagem do medicamento que estampa a imagem de um cachorro e um gato. O médico de Blanco disse que consumir o medicamento para animais seria “por sua conta e risco”, pois não podia garantir quais seriam as reações adversas.

Com um rim transplantado desde os 12 anos, a comerciante Natacha Albarrán também apelou para a alternativa por 23 dias. “O médico nos indicou a ir onde vendiam remédios veterinários, cujo componente é o mesmo mas contêm mais glicose”, aponta Natacha, de 44 anos.

O governo venezuelano não divulga os números oficiais da escassez desde fevereiro de 2014 e nega que a Prednisona esteja em falta, dizendo que em julho chegou um lote de Cuba com 1,2 milhões de comprimidos.

“Não é verdade que exista escassez. Nesse momento, temos capacidade para abastecer a Prednisona. Precisamos lembrar que a taxa de pacientes transplantados no país é de aproximadamente 2 mil ao ano, e temos esse remédio para o ano todo”, assegurou o vice-ministro da Saúde, Henry Hernández.

Segundo o presidente da Federação Médica Venezuelana, Douglas León Natera, muitos pacientes estão “buscando antibióticos, esteroides e medicamentos para tratar doenças de pele em lojas de animais”.

Apesar de Natacha e Blanco não apontarem efeitos secundários provocados pela Predsinona animal, Alejandro Cisneros, nefrólogo especialista em transplantes, afirma que “não se deve administrar remédios que não são indicados para consumo humano”.

A Prednisona é produzida na Venezuela com matéria-prima importada, mas somente a versão para humanos está regulamentada e custa 0,2 bolívares; a veterinária custa 90 vezes mais. /AFP

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