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Vento do Oriente e vento do Ocidente

No fim dessa batalha, veremos com quem ficará a liderança do globo

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2020 | 03h00

Há cinco meses, o vento sopra do Oriente ou do Ocidente sob a batuta do assassino invisível, o coronavírus. O cata-vento que registra as fases dessa guerra de ventos gira tão rápido, sob as ordens desordenadas do vírus, que tentamos resumir as fases do combate pois, no fim dessa batalha, veremos com quem ficará a liderança do globo.

Lembramos que, no início de janeiro, um vírus misterioso surgiu na China. Em 23 de janeiro, Pequim colocou em quarentena a cidade de Wuhan e depois toda a Província de Hubei. Tal façanha costuma ser privilégio dos regimes autoritários. Entretanto, as democracias ficaram admiradas.

Mas rapidamente surgiram dúvidas. A percepção é de que a China oferecera um relato mentiroso do episódio. E por que a demora para dar o alarme? E esse quadro deliberadamente opaco, incompreensível, das primeiras façanhas do vírus, e a grande mentira do Estado sobre o surgimento e depois a carnificina provocada pelo coronavírus? E a ausência do dirigente chinês Xi Jinping?

Mas, em 10 de março, Xi Jinping reapareceu em Wuhan e proclamou a vitória próxima contra o flagelo. Pequim cria então a sua “diplomacia das máscaras”, multiplica os presentes e reforça os vínculos com a Europa Oriental e Central. A diplomacia das máscaras (distribuídas aos milhões, ou bilhões) fascina. É verdade que nessa época Trump está com a cabeça em outro lugar.

E a Europa? A Europa reflete. Macron exorta o continente a se manifestar a uma só voz. Mas sem repercussão. Sem piloto, a União Europeia é um vazio escancarado.

Começa então uma etapa mais equilibrada. A China continua sua ofensiva diplomática. Donald Trump se agita. Está convencido de que o vírus saiu de um laboratório P4 ultra protegido, na China. A um ano das eleições presidenciais, esse é o assunto número um.

Em Washington, Trump quer que a China dê explicações, que seja esclarecido o surgimento do vírus e Pequim se recusa a responder a esse ponto crucial. Trump exige a verdade sobre a onda de mentiras divulgadas há dois meses. Se necessário, ele usará sua arma favorita: novas taxas para punir os chineses.

A China não reage. E persiste na sua ideia. Deseja assumir o lugar dos Estados Unidos como líder do mundo, equipando-se de armas tão potentes como a dos americanos: ou seja, formando uma rede de alianças com atores privados comparável à dos EUA, como Google, Netflix, Harvard, Fundação Gates. E garantir um cordão de aliados nos três ou quatro continentes.

Um vasto programa como esse significa que a China necessitará de muito dinheiro, e os estragos provocados pelo coronavírus não serão apenas fúnebres, mas também econômicos e financeiros. Fatalmente essas formações de geopolítica tentaculares deverão ser revistas para baixo ou adiadas para dias mais sorridentes.

Entre vários exemplos, um olhar sobre o projeto faraônico de Xi Jinping de criação de novas rotas da seda. Claramente, abrir rotas, manufaturas, aeroportos, ferrovias em todo o globo, não para seguir o mesmo itinerário da antiga rota da seda, mas para ajudar os países mais pobres do mundo a se dotarem dos instrumentos de modernidade.

Como o continente mais pobre no mundo, a África foi assim uma das regiões escolhidas por Pequim. Mas os países africanos receberam o choque do vírus como um novo desastre. Como um país duas vezes arruinado, primeiro por uma gestão vergonhosa e em seguida, mais cruel ainda, por um vírus, já golpeado e endividado perigosamente, poderá um dia, mesmo distante, zerar sua dívida? Ora, a China, que também mal se recompunha depois de um período difícil, foi golpeada violentamente pelo coronavírus.

A Ásia também, sobretudo os países que representam um interesse geoestratégico para Pequim, está arruinada. O Paquistão é um aliado da China e a rota da seda permitiria a realização de um grande corredor econômico unindo a China ao Oceano Índico. Ora, o Paquistão sofreu este ano, por causa do coronavírus, uma punção de US$ 8,2 bilhões. Bangladesh, o mais pobre entre os pobres, perdeu US$ 3 bilhões, e a Tailândia já revisou seu crescimento para baixo. São dados calamitosos que Xi Jinping provavelmente deve enxergar desfilando sob suas pálpebras fechadas nas noites de insônia. / Tradução de Terezinha Martino

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