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Verdade é a nossa

A polarização extrema torna impossível que grupos políticos rivais façam acordos

Moisés Naím*, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2020 | 04h00

Há uma fórmula que sintetiza o encolhimento da democracia liberal: populismo + polarização + pós-verdade levam ao continuísmo. O populismo não tem nada de novo. Em teoria, é a defesa do povo (populus) contra os abusos das elites. Na prática, é um termo usado para descrever fenômenos políticos às vezes muito diferentes entre si - Donald Trump e Hugo Chávez, por exemplo. É problemático de nascença. Quando se junta, então, à polarização e à pós-verdade, sua capacidade destrutiva se multiplica.

Poucos líderes se definem como populistas. A definição costuma ser mais usada contra adversários políticos. Um erro comum é supor que o populismo seja uma ideologia. 

Há populistas que defendem a abertura econômica e cultural e outros que são isolacionistas; há os que confiam no mercado e os que acreditam no Estado. Os populistas “verdes” priorizam a proteção das florestas, enquanto os “industrialistas” querem o crescimento econômico, mesmo que polua o meio ambiente. Há populistas para todos os gostos.

A experiência histórica mostra que o populismo não é uma ideologia, mas uma estratégia para tomar o poder e, se possível, não largá-lo.

Esse populismo que se aferra ao poder é o mais perigoso. Um país pode sobreviver (e recuperar-se) a um mau governo cujas condutas populistas abalem a economia, estimulem a corrupção e enfraqueçam a democracia. Mas, quanto mais se prolongar esse mau governo, mais danos ele provoca, mais difícil se torna substituí-lo e mais custosa fica a recuperação econômica.

A Venezuela, por exemplo, pode ter sobrevivido ao período de Chávez, mas o que devastou esse país, e está dificultando tanto sua recuperação econômica, são as duas décadas do mesmo regime inepto, corrupto e autocrático iniciado por Chávez e prolongado por Maduro.

O continuísmo é o inimigo a vencer. Vimos seus efeitos no Peru de Fujimori, na Argentina dos Kirchners, no Brasil de Lula e Dilma, na Bolívia de Evo Morales e na Nicarágua do Ortega. É claro que se agarrar ao poder, violando a Constituição ou mudando-a para aumentar o número de mandatos, não é só um fenômeno latino-americano. Aí estão a China de Xi Jinping, a Rússia de Putin, a Turquia de Erdogan e a Hungria de Orbán, sem falar na longa lista de longevos ditadores africanos. 

O populismo e a polarização fazem uma boa dobradinha. É normal que em uma democracia haja grupos antagônicos que disputem o poder. De fato, isso é salutar. Mas nos últimos tempos temos visto, em muitos países, essa saudável competitividade mudar para uma polarização nociva que atenta contra a democracia. 

A polarização extrema torna impossível que grupos políticos rivais façam acordos e assumam compromissos necessários para governar numa democracia.

Rivais políticos se convertem em inimigos irreconciliáveis que não reconhecem a legitimidade do “outro”, não aceitam o direito desse outro de participar da política e, muito menos, que chegue a governar.

 

Cada vez mais, as diferenças que costumam dividir as sociedades (desigualdade, imigração, religião, região, raça, economia) deixam de ser fonte primordial da polarização, abrindo para identidade grupal como o fator que determina as preferências políticas. Além disso, essa identidade costuma se definir em contraste com a identidade do “outro”, a do adversário. Essa perspectiva simplifica tudo: os tons cinza desaparecem e tudo fica branco ou preto. Ou você é “dos meus” ou é do grupo cuja existência política eu não tolero. 

Assim, fomentando a polarização, aprofundando os desacordos e buscando novas razões para o conflito social criamos poderosos instrumentos a serviço do continuísmo. O “nós contra eles” mobiliza e fortalece seguidores que, motivados e insuflados a enfrentar o “outro lado”, cuja identidade social e política abominam, se convertem em uma importante base de apoio aos que se mantêm no poder exacerbando divisões. Mas, ao populismo e à polarização, juntou-se um novo vício, muito mais moderno: a pós-verdade.

Desinformar, confundir, alarmar, distorcer e mentir ficou muito mais fácil e seu impacto se amplifica graças à nova arquitetura da informação, pela qual acreditamos menos nas instituições e mais em nossos amigos. Nas democracias de hoje, verdade é o que meus amigos de Facebook, Instagram ou Twitter acreditam ser verdade. Mesmo que seja mentira. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

* É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENTH

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