Verdadeiras questões eleitorais

Políticos devem tratar sobre como criar empregos para sustentar a classe média nos EUA e financiar nova infraestrutura

THOMAS L.FRIEDMAN / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2010 | 00h00

Nas duas últimas semanas, tomei o expresso Acela da Amtrak para Filadélfia e Nova York. Em ambas as estações placas anunciavam nas plataformas de embarque que as novas obras eram financiadas pela "Lei de Recuperação e Reinvestimento de 2009", ou seja, pelo estímulo econômico de US$ 787 bilhões. E em que consistiam essas obras? Em nova "iluminação" - para que as pessoas possam enxergar melhor como estão incrivelmente decadentes, subdimensionadas e ultrapassadas as plataformas e a infraestrutura das ferrovias em duas das maiores cidades dos EUA.

Se este fosse um país sério, as eleições de meio de mandato tratariam destes problemas: como criamos os empregos necessários para sustentar nossa classe média e financiar uma nova infraestrutura? Para tanto, precisaríamos de uma política diferente - que não se conformasse ao programa de nenhum dos dois partidos. Precisamos aumentar alguns impostos a fim de gerar receitas, como o imposto sobre energia ou talvez sobre o valor agregado, e baixar outros, sobre os salários, a fim de estimular o trabalho, e sobre as corporações multinacionais para que elas tragam para cá os trilhões que têm no exterior para investi-los nos EUA.

Temos de ajustar alguns serviços, como a seguridade social, enquanto investimos em nova infraestrutura, como a malha para os trens de grande velocidade e a banda larga da internet; os EUA são o 22.º país do mundo em velocidade média de conexão. E, acima de tudo, precisamos empreender uma discussão honesta sobre o que conseguimos nesta rotina que nunca muda.

De que modo caímos nela não é segredo. Quisemos compensar anos de salários estagnados da classe média de uma maneira fácil. Assim como os jogadores de beisebol da década de 90 enchiam-se de esteroides para criar músculos artificiais e pontuar mais - em vez de se dedicar a um preparo físico adequado - nossos dois partidos injetaram os esteroides, o crédito barato, em Wall Street para que continuasse jogando, e para que os americanos comuns continuassem comprando casas.

Ambos começaram a fazer pontos, artificialmente - até que os esteroides acabaram. Agora precisamos recompor a musculatura dos EUA da maneira antiga. Como? No curto prazo, provavelmente, precisaremos de mais estímulo para que a economia volte a funcionar de forma que as pessoas tenham confiança suficiente para comprar e investir. Mas, ultimamente, os bons empregos só aparecem quando criamos mais produtos e serviços que tornam a vida das pessoas mais saudáveis, mais produtivas, mais seguras, mais confortáveis ou mais divertidas. Em uma economia global, precisamos criar estes produtos e serviços com uma força de trabalho tão bem preparada e produtiva que seja capaz de elevar a moderna tecnologia de modo que um americano consiga fazer o trabalho de 20 chineses e, portanto, receber o mesmo que 20 chineses. Não há nenhuma outra maneira. A função do governo é contribuir para inspirar, educar, capacitar e proteger esta força de trabalho. Este deveria ser o tema das atuais eleições. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA E ESCRITOR

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